segunda-feira, fevereiro 21, 2011

15 INDICÍOS DE QUE VOCÊ É UM PSEUDOINTELECTUAL


1. Defender que todos só podemos cultuar o que vem da cultura nacional, desprezando toda forma de expressão das outras culturas pelo mundo.
2. Jamais admitir que desconheça algum assunto e sempre ter opinião formada sobre tudo, especialmente temas relacionados à arte, filosofia, política ou ciência.
3. Criticar tudo e todos, sempre, dispensando a necessidade de justificativas e argumentos para sustentar tal atitude.
4. Não ver nenhuma diferença entre ser contra o governo de um país e ser contra o povo daquele mesmo país.
5. Detestar tudo que é considerado popular, sem analisar qualidade; já que o que é realmente bom deveria vender pouco e nunca ser “banalizado”.
6. Utilizar linguagem excessivamente rebuscada em qualquer situação, independente de estar conversando com um alguém culto ou de pouca instrução.
7. Querer freqüentemente discutir idéias e teorias (a maioria das quais nunca compreendeu de verdade) com quem possui "posturas divergentes" das suas, muitas vezes fazendo isso nos locais e situações mais inoportunos.
8. Considerar seres de “inteligência inferior” ou “manipulados pelo sistema” todos aqueles que discordam das suas opiniões.
9. Cultivar uma expressão taciturna e um olhar de total desdém quando está em meio à "plebe".
10. Dizer que não recebe nenhuma influência da sociedade e que não tem nenhum freio moral.
11. Afirmar e defender que determinada obra de arte é genial, mas não saber explicar o porquê.
12. Ler uma enorme quantidade de orelhas de livros (de preferência sempre em público e fazendo uso de exemplares com o título e/ou nome do autor em letras enormes e garrafais) e fingir que manja de literatura e filosofia.
13. Lotar o seu site, blog, Facebook, Orkut, MSN, Twitter etc, com milhares de citações de pensadores sobre os quais não sabe absolutamente nada.
14. Considerar Dan Brown um ícone da literatura e James Cameron o maior diretor de cinema de todos os tempos (nesse caso, além de pseudointelectual, você também é um pseudo-nerd).
15. Ser adepto de várias “teorias” conspiratórias.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

NOSSO REAL TAMANHO NO UNIVERSO

Segue aquele que é, na minha opinião, um dos melhores videos do Youtube.
Além de extremamente didático, constitui um belo golpe na pretensão infantil de boa parte da humanidade.

 
 

terça-feira, fevereiro 01, 2011

VIDA NA TERRA E VIDA EXTRATERRESTRE

Resumo da apresentação realizada no evento 30 Anos de Cosmos, dia 02 de outubro de 2010, no Auditório da Estação Ciência, às 15h00min.

Palestrante: Átila Oliveira da Silva.


Poucas coisas na Terra são tão fascinantes quanto a diversidade de seres vivos que a povoa. E um dos maiores mistério da ciência é, certamente, como a vida teria surgido. Embora hoje já se tenha uma idéia de quando a vida terrena começou, ainda não sabemos como esse fenômeno tão singular teve origem. O mistério torna-se ainda maior se pensarmos na vida não apenas no nosso planeta, mas no universo. Seria a vida um fenômeno universal ou localizado? Seria a vida uma exceção e não a regra no cosmo? Seria a vida exclusividade do planeta Terra? É possível que haja vida em outros planetas? Se sim, esses seres seriam parecidos conosco? Existe vida em Marte?
O astrônomo e divulgador da ciência Carl Sagan (1935-1996) tinha especial interesse na busca por vida extraterrestre e se uniu a especialistas de diversas áreas numa verdadeira caça a evidências nesse sentido, ao mesmo tempo em que repudiava formas não científicas de fazê-lo. Tal atitude pioneira é considerada a semente da área de pesquisa científica interdisciplinar hoje conhecida como Astrobiologia – o estudo da origem, evolução, distribuição e futuro da vida no universo. Entre os aspectos mais interessantes dessa ainda nova área da ciência seria a busca pela química pré-biótica, ou seja, das condições formadoras da vida. Descobertas nesse sentido em outros planetas ajudariam a compreender a própria origem da vida na Terra. Trata-se, contudo, de uma tarefa um tanto ingrata. Afinal, como procurar vida no universo se não conhecemos praticamente nada sequer da nossa própria galáxia, a Via Láctea?
Em 1960, o então astrofísico da Universidade de Cornell Frank Donald Drake, grande amigo de Carl Sagan, deu início ao projeto SETI (Search for Extra-Terrestrial Intelligence ou Procura por Inteligência Extra-Terrestre, em português), que propunha a busca por ondas de rádio que pudessem indicar a presença de civilizações extraterrestres tecnologicamente avançadas. Drake acabou, com o seu trabalho, inspirando o amigo a escrever o célebre romance de ficção científica “Contato” (1985). O primeiro e mais famoso sinal supostamente inteligente foi recebido por Jerry R. Ehman, pesquisador voluntário, num projeto da Universidade do Estado de Ohio, na noite de 15 de agosto de 1977. Ao analisar os dados registrados na impressora, Jerry notou a chegada de um forte sinal recebido pelo telescópio. Imediatamente, destacou-o com um círculo e escreveu à margem a interjeição: "wow!" (“uau!”). O sinal se repetiu apenas uma vez, mas passou a ser considerado o mais forte indício de uma fonte artificial de sinais de rádio. Todavia, como é de praxe quando se faz ciência de verdade, tais sinais devem ser analisados com cautela.
É de fundamental importância, para estudar a possível existência de vida fora da Terra, entender como ela se desenvolveu e se diversificou por aqui. Os naturalistas ingleses Charles Robert Darwin (1809-1882) e Alfred Russell Wallace (1823-1913) foram os pioneiros a mostrar de maneira científica que os seres vivos se modificam, por meio de processos evolutivos. Darwin foi quem apresentou a conclusão sob a forma de teoria científica (“A Origem das Espécies e a Seleção Natural”, 1859), que só vem ganhando força com descobertas posteriores, principalmente na área da genética. No século XX, o biólogo alemão Ernst Mayr (1904-2005), foi o grande responsável pela atualização da teoria da evolução, ao somar à mesma os conceitos modernos de ecologia e genética. No final desse mesmo século, surgiram grandes divulgadores do tema junto ao grande público, como o paleontólogo norte-americano Stephen Jay Gould (1941-2002) e o zoólogo britânico Richard Dawkins. O próprio Carl Sagan abordou a evolução biológica com sua didática magistral na sua série televisiva “Cosmos”.
Para saber como os seres vivos evoluíram em nosso planeta, é preciso antes conhecer a estrutura celular dos mesmos. Quanto à organização celular, os seres vivos dividem-se em procariontes e eucariontes. Os primeiros são os mais simples, cujo núcleo celular (que abriga o material genético, o DNA) não é envolto por uma membrana, denominada carioteca. Esse grupo é formado pelas bactérias e cianobactérias – também conhecidas como “algas azuis”, responsáveis por cerca de 90% do oxigênio que respiramos. Os eucariontes, por sua vez, possuem carioteca e uma série de organelas celulares. São eucariontes todos os seres multicelulares (compostos por várias células, como os animais e as plantas) e os seres unicelulares mais complexos como os protozoários (amebas, paramécios etc.) e algumas algas. Recentemente, um grupo de seres vivos, outrora classificado como bactérias, ganhou um domínio próprio. Denominados arqueobactérias ou, mais adequadamente, Archaea (pronuncia-se “arquéia”), eles são ainda mais simples que as bactérias e foram separados destas na classificação biológica por ter-se concluído que são tão diferentes delas quanto elas o são de todas as outras formas de vida. Para efeito de organização celular, contudo, os archaea ainda são classificados como procariontes. Esses seres estão muito próximos daquilo que seria as primeiras formas de vida e é nesse grupo que figuram a maioria dos denominados extremófilos; seres que vivem em condições extremas de temperatura, pressão, salinidade e acidez, dentre outros fatores. A descoberta dos extremófilos abriu um novo campo de pesquisa na busca por vida extraterrestre. Verdade que há um tipo de ser ainda mais simples que os archaea: os vírus, que são pouco mais que material genético (DNA ou RNA) envolto por uma cápsula de proteína. Contudo, eles não podem ser relacionados com as primeiras formas de vida, pois todo vírus é obrigatoriamente parasita, necessitando infectar células vivas para se reproduzir.
Infelizmente, a maior parte do público leigo possui várias idéias equivocadas a respeito da evolução da vida na Terra, muitas das quais remetendo a interpretações que já foram revistas e corrigidas há décadas no meio acadêmico. É preciso eliminar tais concepções errôneas para que se possa entender o estudo da vida como um todo, incluindo o de possíveis formas de vida extraterrestres.
O primeiro desses equívocos é acreditar que a evolução da vida na Terra deu-se de forma lenta e gradual. O próprio registro fóssil mostra que a coisa foi bem diferente. Tendo surgido a cerca de 3,8 bilhões de anos, a vida terrena foi composta exclusivamente por seres procariontes até 1 bilhão de anos, ou seja, quase três quartos da sua história. Esse é o provável momento do surgimento dos primeiros eucariontes, sabidamente unicelulares. Após isso a evolução acelerou-se de maneira espantosa, com os primeiros seres multicelulares (algas) surgindo há 600 milhões de anos, e os primeiros animais (a fauna de Ediacara) há cerca de 580 milhões de anos. Esses últimos sofreriam um grande surto de diversidade de tipos anatômicos (a chamada “Explosão Cambriana”) há 540 milhões de anos. Dinossauros, bem como os répteis voadores e marinhos foram extintos há 65 milhões de anos. Os primeiros primatas surgiram há 55 milhões de anos e a nossa espécie, o Homo sapiens, há 150 mil anos. Se compararmos a idade da Terra com o calendário que usamos, o homem teria surgido nos últimos segundos do dia 31 de dezembro. Como se vê, a evolução da vida em nosso planeta não foi gradual e, se a célula eucarionte não tivesse se formado, é bem provável que a biosfera se encontrasse praticamente inalterada hoje, com a Terra povoada exclusivamente por archaea e bactérias. A formação da primeira célula eucarionte foi como um tiro no escuro; um evento totalmente casual que acabou fazendo toda a diferença. Stephen Jay Gould, em artigo publicado na revista “Scientific American” em 2001, afirmou que na verdade os procariontes seriam as formas de vida mais vitoriosas, pois “apresentam maior variabilidade bioquímica que todos os outros grupos, existem virtualmente em todos os lugares e são praticamente indestrutíveis”. Os verdadeiros donos da Terra. É essencial saber disso ao se buscar indícios de vida pelo universo afora.
Igualmente presente no senso comum é a imagem da evolução da vida como uma árvore, com um tronco frondoso e numerosos galhos no topo. Essa imagem baseia-se na idéia ultrapassada de que a vida no planeta Terra seria hoje muito mais diversificada que no passado. Isso também não é verdade. Provavelmente, hoje o número de espécies de seres vivos é maior que em qualquer outra época, mas a diversidade de tipos anatômicos básicos é muito inferior ao que já existiu. Isso é ainda mais evidente no Reino Animal, onde a maioria dos tipos surgidos na Explosão Cambriana durou poucos milhões de anos, alguns poucos duraram um pouco mais e um número ainda menor sobrevive atualmente. A imagem moderna da evolução da vida na Terra seria muito mais semelhante a um arbusto, com um número muito maior de galhos próximos à sua base, como se pode ver na figura abaixo.

Representação moderna da evolução da vida na Terra, onde se pode observar o tempo (milhões de anos, eixo vertical) e a diversidade anatômica (eixo horizontal), por David Starwood, baseado em informações de Stephen Jay Gould (2001).


Por fim, outro equívoco bastante freqüente é achar que a evolução possui um propósito e, mais ainda, que esse propósito seja a criação de seres bípedes e inteligentes, capazes de erguer civilizações. Esse pensamento vem da tendência humana de se ver como padrão a ser seguido pelas outras formas de vida. Nossa espécie não pode ser considerada o “ápice da evolução”, mesmo porque não existe ápice nenhum. A evolução biológica não possui qualquer direção ou propósito, a não ser a adaptação do indivíduo ao seu meio ambiente. E isso independe da complexidade. Determinados nichos ecológicos favorecem seres mais simples. Isso pode ser verificado facilmente nos parasitas. Para cada ser de vida livre que se torna mais complexo há um equivalente parasita perdendo estruturas e até sistemas inteiros para tirar melhor proveito do hospedeiro. Ambos estão evoluindo, pois originam novas espécies, mais adaptadas aos seus respectivos habitats. De fato, se há algo previsível na evolução biológica, seria justamente a sua imprevisibilidade.
Para que algum corpo celeste possa abrigar vida como conhecemos (digo isso pelo fato da ficção científica já ter nos brindado com excelentes idéias sobre vida totalmente diferente daquilo que conhecemos) ele deve obedecer seis condições básicas, a saber:
  1. Localização na chamada Zona de Habitabilidade (região correspondente à determinada distância dos planetas com relação à estrela que orbitam, onde a gravidade e temperatura seriam teoricamente propícias à vida, e que no nosso Sistema Solar corresponderia da órbita de Vênus à órbita de Saturno);
  2. Superfície rochosa (o que já exclui todos os planetas gasosos);
  3. Presença de atmosfera (uma vez que todos os seres vivos respiram algum tipo de gás);
  4. Presença dos elementos químicos carbono (C), hidrogênio (H), nitrogênio (N), oxigênio (O), fósforo (P) e enxofre (S) - matéria prima para a formação das proteínas (formadas por aminoácidos) e açucares; estrutura básica dos seres vivos;
  5. Presença de água líquida (pois todos os seres vivos, sem exceção, precisam de alguma porcentagem de água líquida para o seu metabolismo);
  6. Temperatura da litosfera entre -150°C e 100°C para os seres vivos em atividade – lembrando que há espécies (incluindo alguns animais) capazes de sobreviver por meses ou anos em temperaturas maiores ou menores, ao ficarem inativos, em fenômenos como a cristalização e a criptobiose.
Com base nessas informações, nosso Sistema Solar apresenta, até o momento, quatro possíveis candidatos a abrigar vida: o planeta Marte, a lua de Júpiter Europa e as luas de Saturno Encélado e Titã. Marte, justamente por se ter um maior número de informações a respeito, é o que apresenta maiores possibilidades. Recentes descobertas confirmaram que ele apresentou grandes corpos de água líquida no passado (hoje presente apenas sob a forma de gelo) e são grandes as chances de que ao menos há milhões de anos ele tenha abrigado vida unicelular. Titã é considerada muito similar a Terra em seus primórdios, e ganhou notoriedade em 2010 com a descoberta de fenômenos químicos que, talvez, possam indicar atividade biológica na sua superfície, sob sua densa atmosfera e grandes lagos e mares de metano e etano. Já Encélado e Europa, apesar da descoberta de água (na primeira sob a forma de gelo e gêiseres e na segunda formando um grande oceano sob uma camada de gelo de 5 km a 10 km de espessura) e de matéria orgânica (baseada em carbono, que é sempre bom lembrar, não é garantia nenhuma da existência de formas de vida) em ambas, apresentam como ponto desfavorável à vida como conhecemos suas atmosferas extremamente rarefeitas.
Em 2000, o paleontólogo Peter D. Ward e o astrofísico Donald Brownlee, ambos da universidade de Washington, jogaram luz sobre o tema e, paralelamente, conquistaram o ódio dos fanáticos por ETs e discos voadores, ao lançarem o livro “Terra Rara” (vide abaixo, em Referências). Com um estudo detalhado, os dois pesquisadores concluíram que a vida unicelular (notadamente os extremófilos) pode ser relativamente comum no universo, mas a vida multicelular seria algo extremamente raro, e aquilo que poderia se chamar de vida inteligente, se existe, seria ainda mais raro e, com certeza, nada teria de humanóide (bípede, uma cabeça, um par de braços e um par de pernas). Essa conclusão corrige, entre outras coisas, o erro cometido por Drake ao elaborar sua famosa equação, em 1961, com que propunha calcular a probabilidade da existência de civilizações capazes de emitir sinais de rádio para o espaço, na Via Láctea. Sagan simpatizou com a equação e passou a divulgá-la - muita gente ainda hoje pensa que foi Sagan quem a elaborou. Drake chegou à otimista cifra de 100 mil civilizações, que fez os ufólogos darem pulos de alegria. Aliás, alguns charlatões do ramo adoram distorcer esse valor, fazendo-o alcançar a casa dos milhões. Ocorre que os dois astrônomos erroneamente concluíram que toda vida unicelular obrigatoriamente um dia evoluiria para uma espécie capaz da emissão de tais sinais. Como acabamos de ver, a evolução não possui qualquer propósito ou caminho definido, tampouco visa criar seres considerados inteligentes. A verdade é que a espécie humana é uma exceção evolutiva e não a regra. Já vimos como seria a vida por aqui se a célula eucarionte nunca tivesse surgido. E sua aparição não constitui garantia alguma do surgimento de uma espécie capaz de criar cultura e tecnologia. Pegando apenas mais um exemplo, se os dinossauros não tivessem sido extintos, você não estaria lendo esse resumo agora – e ao contrário do que vemos em certas produções hollywoodianas, nada indica que eles seguissem esse caminho evolutivo tão antropocêntrico. Contudo, seria por demais injusto crucificar Drake e Sagan por isso, pois todos são passíveis de erro, ainda mais quando não se é um especialista da área – nesse caso, evolução biológica. Atualizando a equação de Drake, chegamos ao módico valor entre 0 e 10 civilizações da Via Láctea, capazes de emitir sinais de rádio para o espaço. Muitos estudiosos defendem que tais civilizações sequer existam em nossa galáxia.
Carl Sagan certa vez afirmou que se não há vida fora da Terra, então o universo seria um grande desperdício de espaço. Poucos lembram (ou sabem), entretanto, que ele referia-se a qualquer forma de vida, e não especificamente a civilizações extraterrestres. Além de serem os verdadeiros donos da Terra, como escreveram Gould e outros; é provável que os archaea e as bactérias (e talvez também outros seres similares, ainda desconhecidos) sejam a forma de vida mais abundante no universo. E, em algumas galáxias, possivelmente a única. O primeiro extraterrestre com quem manteremos contato muito provavelmente será um micróbio. E se existe vida inteligente fora da Terra e se um dia a encontrarmos, esqueçamo-nos dos alienígenas humanóides baixinhos e cabeçudos, protagonistas de tantos relatos de procedência duvidosa. As chances são muito maiores de que essa sábia criatura se pareça mais com um polvo flutuante, uma coisa amorfa de tonalidades metálicas (baseada em outro elemento químico que não o carbono), ou mesmo algo tão inusitado quanto o oceano pensante do romance “Solaris” (1961), do polonês Stanislaw Lem (1921-2006).


Referências:
Ø      ASIMOV, Isaac, Civilizações Extraterrenas, Nova Fronteira, 1980.
Ø      DAWKINS, Richard, A Grande História da Evolução, Companhia das Letras, 2009.
Ø      GLEISER, Marcelo, Criação Imperfeita, Record, 2010.
Ø      GOULD, Stephen Jay, Darwin e os Grandes Enigmas da Vida, Martins Fontes, 1992.
Ø      GOULD, Stephen Jay, Vida Maravilhosa, Companhia das Letras, 1990.
Ø      SAGAN, Carl, Cosmos, Villa Rica, 1983.
Ø      SAGAN, Carl, O Mundo Assombrado Pelos Demônios, Companhia das Letras, 1995.
Ø      WARD, Peter D. e BROWNLEE, Don, Terra Rara, Campus, 2000.

Na WEB:
Ø      www.astrobiology.com
Ø      www.palaeos.com
Ø      tolweb.org
Ø      www.sciam.com.br


Átila Oliveira da Silva é biólogo, professor e responsável pelo blog Pegadas de Um Dinossauro do Século XXI (atilassauro.blogspot.com)

terça-feira, janeiro 18, 2011

UMA MÃE DEDICADA... E INJUSTIÇADA

Um dos equívocos mais célebres da história da paleontologia envolveu duas espécies asiáticas de dinossauros. E demorou mais de setenta anos para ser corrigido. Tudo teve início quando o excêntrico naturalista e caçador de fósseis do Museu Americano de História Natural, Roy Chapman Andrews, partiu com uma autentica caravana rumo ao deserto de Gobi, na Mongólia, em abril de 1922. Reunindo 125 camelos, 2 caminhões, 3 automóveis e uma equipe que incluía dezenas de carregadores nativos e um cinegrafista de Hollywood (contratado especialmente para filmar as "façanhas" de Andrews); o famoso aventureiro ansiava por grandes achados, num local que já começava a ganhar notoriedade pelos impressionantes fósseis já descobertos e descritos.
Andrews era famoso por sua falta de paciência e atitudes precipitadas. Definindo a si mesmo como um "espírito inquieto", por várias vezes ele destruiu preciosos fósseis na pressa de desenterrá-los, na maior parte das ocasiões fazendo uso de dinamite. Não demorou que no meio acadêmico o dano massivo de fósseis em campo recebesse a alcunha de RCA, as iniciais do maior destruidor voluntário de fósseis de todos os tempos.
Durante sua expedição no deserto de Gobi, a equipe de Andrews fez um achado simplesmente extraordinário. Foram encontrados ninhos, cada um contendo grande número de ovos fossilizados. O tamanho dos ovos e as pegadas próximas não deixavam dúvida: eram ninhos de dinossauro. Não foram os primeiros ovos de dinossauro a serem descobertos (já se conhecia os ninhos de Maiasaurus da América do Norte), mas até então ninguém os havia encontrado em tamanha quantidade. Ainda hoje, é o maior conjunto de fósseis de ninhos e ovos já descrito. A equipe encontrou próximo aos ninhos esqueletos de um dinossauro herbívoro e quadrúpede de porte médio (com cerca de 2m de comprimento). Um ceratopsídeo (grupo que compreende os dinossauros herbívoros quadrúpedes e dotados do característico adorno ósseo sobre o pescoço, sendo que a maioria das espécies apresenta chifres, como o Triceratops) basal, desprovido de chifres. O tal animal foi batizado com o nome de Protoceratops (algo como "o primeiro com chifres", pois como até então era o único ceratopsídeo deste tipo, pensou tratar-se do precursor da família) e Andrews logo o considerou como sendo a espécie que havia nidificado ali. Sobre um ninho soterrado, foi encontrado o fóssil de outro animal; um pequeno dinossauro bípede e carnívoro, com um bico muito semelhante ao de uma ave e apenas um par de pontiagudos dentes na maxila superior. Seu aspecto lembrava vagamente o de uma avestruz. Como estava sobre o ninho, Andrews logo conclui que o mesmo estava se alimentando dos ovos e deu-lhe o nome de Oviraptor ("ladrão de ovos").
Um dos ninhos encontrados pela expedição de 1922 (American Museum of Natural History).

Reconstituição de 1980 de fêmea de Protoceratops andrewsi "guardando" o ninho.


Reconstituição do Oviraptor philoceratops (American Museum of Natural History).

Em 1993, uma nova expedição ao deserto de Gobi, desta vez liderada pelos paleontólogos Michael Novacek e Mark Norell, mostraria que Andrews havia se enganado. A equipe encontrou outros ninhos. Num deles identificaram uma verdadeira jóia: um então ovo de Protoceratops contendo um embrião. Mas o exame do mesmo revelou, para surpresa de todos, um embrião de Oviraptor. O pequeno carnívoro encontrado no deserto não era ladrão de ovos como se pensava, mas sim uma mãe dedicada que morreu protegendo o seu ninho, provavelmente durante uma tempestade. Contudo, seguindo as leis da prioridade de nomenclatura utilizada na paleontologia, o nome Oviraptor permanece até hoje.

Reconstituição moderna de uma fêmea de Oviraptor alimentando a ninhada (National Geographic Society).


A partir deste importante episódio, podemos chegar a três conclusões. A primeira e mais óbvia, é a de que o temperamento precipitado de Roy Chapman Andrews o fez chegar a uma conclusão sem sustentar-se em provas suficientes, o que só com muita sorte pode dar certo. E a confirmação da hipótese não a legitimaria, pois a mesma se baseou num mero palpite, sem evidências, não sendo portanto um argumento científico. Contudo, é inegável a atitude pioneira e a determinação de Andrews como aspectos positivos desse tipo de comportamento. Infelizmente, esse espírito aventureiro não é muito comum entre os acadêmicos. E ainda mais raros são os que o exercem de forma equilibrada. É bem mais fácil seguir a linha Steve Irwin: bancar o palhaço sensacionalista, tornando-se estrela incomodando e irritando animais que estão quietos no seu canto. Como segunda conclusão, embora episódios como o de Andrews sejam raros, cientistas muitas vezes incorrem em erros e teorias incompletas. A razão varia bastante. Pode ser desde o fato da descoberta, em se tratando especificamente da paleontologia, de um estranho espécime sem análogos nos dias atuais (ver meu post O Que é Um Dinossauro); até crenças pessoais arraigadas e conceitos que praticamente norteiam um determinado momento histórico (ver meu post Os Moluscos de Leonardo da Vinci). Isso de forma alguma constitui demérito para a ciência. Serve apenas para mostrar o quanto ainda se tem para descobrir sobre a natureza e que cientistas são seres humanos comuns, em detrimentos da aura de quase divindade e sabedoria sobre-humana que muitos leigos cultuam sobre eles – e que alguns cientistas, como humanos que são, não fazem nenhum esforço para desmistificar. Por último, mas não menos importante, episódios como este refletem o desenvolvimento da ciência como um todo. Muitas teorias apresentadas séculos atrás foram alteradas ou mesmo substituídas. Uma teoria que hoje é válida sempre leva, em maior ou menor grau, a interpretação de teorias que a precederam (ver meu post Ciência e Trabalho Científico). As ciências são mutáveis, e se desapontará profundamente quem pretende encontrar nelas repostas para tudo. Não é esse o seu objetivo. Afinal, se os cientistas já tivessem todas as respostas, não teriam por que continuar trabalhando. A essência do pensamento científico reside na descoberta. E todo cientista sabe que ainda há muito pra se descobrir.
Muito provavelmente os paleontólogos do futuro rirão dos equívocos cometidos pelos seus colegas do nosso século. Mas é exatamente assim que as coisas funcionam. Descobertas e mais descobertas confirmarão ou refutarão o que se sabe hoje, peças se encaixando e sendo realocadas, na esperança de compor um quebra-cabeça que não se tem nenhuma certeza se um dia estará completo. Isaac Newton expressou isso muito bem ao afirmar "que só enxergou mais longe porque estava de pé, sobre os ombros de gigantes".

sexta-feira, dezembro 24, 2010

SOBRE FÉ, DIVINDADES E EPIDERME



Não possuo qualquer formação na área das ciências humanas. É verdade que tive História da Ciência na graduação, assim como posteriormente freqüentei alguns cursos na área de Filosofia. Mas para todos os efeitos, minha vida acadêmica remete exclusivamente às ciências biológicas. Entretanto, fatos cotidianos fizeram-me ater a um assunto extremamente pertinente nos dias atuais, que está diretamente relacionado com a dita grande área das humanidades e para o qual boa parte da população prefere fazer vista grossa: a noção extremamente particular, e por vezes egocêntrica, que muitos indivíduos possuem da divindade.
Sim, este meu post tem a clara intenção de provocar. Considero a provocação racional algo não apenas necessário como muito bem vindo. Contudo, não tenho aqui a pretensão de estabelecer uma maneira "correta" ou "melhor" de se acreditar numa força superior. Essa é uma ferramenta dos fanáticos religiosos e nem religioso eu sou. Muito menos agirei como os militantes pró Dawkins, tentando convencer a todos de que ter qualquer tipo de fé é uma grande bobagem e só lhes traria prejuízos. Sou bem menos megalomaníaco. Acredito seriamente que fé constitui algo extremamente pessoal, obviamente subjetivo, além de sujeito as mais diversas condições históricas e sociais. Aliás, mantenho como um dos alicerces da minha filosofia pessoal de vida a noção de que todo tipo de fé é válido, desde que o respeito à fé de outrem faça parte da mesma. Mas o mundo real nos mostra que a coisa não é tão simples. Aqueles que, assim como eu, já cresceram e não tem medo de enxergar as coisas como elas realmente são, abandonando qualquer ideal de um mundo cor de rosa, sabem muito bem que esse não é um mal dos “tempos modernos”, uma vez que a nossa espécie sempre foi, por natureza, separatista. Acredita que não existe discriminação religiosa no Brasil? Então experimente declarar abertamente diante de um público heterogêneo que você não celebra Natal, para ver o número de indivíduos que te olharão torto. Ou, como já presenciei, experimente organizar um culto afro-brasileiro num local próximo a residência de um evangélico.
Realmente não é preciso chegar ao extremo das guerras e homicídios para se perceber a intolerância religiosa. E o que pretendo abordar hoje são justamente a intolerância e o egoísmo mais tênues, presentes no dia a dia e por vezes até exaltados pela mídia. Pretendo desnudar aqueles comportamentos socialmente aceitáveis e que geralmente passam despercebidos, deixando a falsa impressão de que são inofensivas manifestações culturais, mas que na verdade estão longe de serem inocentes. É impressionante como muitas pessoas, famosas e anônimas, levam sua fé ao ponto de uma pessoalidade e intimidade que beiram o surrealismo. Bandidos que se julgam “protegidos por Deus” e carregam patuás para "fechar seu corpo" contra seus inimigos. Donas de casa carolas e supostamente de boa índole que atribuem desgraças ocorridas com seus desafetos a um possível castigo divino. Jogadores de futebol que rezam para conseguir marcar aquele gol importante e ainda atribuem a vitória do time em que jogam a Deus ou ao seu santo de fé. Sem falar nos já emblemáticos rituais do torcedor brasileiro (que há muito fazem parte do meio futebolístico, mas que também já chegaram a outros esportes, a exemplo do vôlei), como rezar durante os jogos, vestir sua “camisa da sorte”, usar amuletos e benzer o seu computador ou aparelho de televisão, só pra citar alguns. Parece que algumas pessoas gostam de se sentir os favoritos de seus deuses e guias. O que provoca a inevitável pergunta: se Deus está do lado do seu time/país/igreja/facção criminosa, então quem estaria do lado do adversário? O Diabo? O Monstro de Espaguete Voador? O Mário Brós? O ET Bilu? Ninguém? Indo mais longe, ao atribuir a Deus ou ao seu santo a vitória da sua equipe, o profissional do esporte/torcedor não estaria creditando ao mesmo a derrota da equipe adversária? Então Deus realmente teria um lado? O mais irônico é que sempre que faço essa pergunta recebo como resposta um silêncio sepulcral ou, no máximo, um resmungo ininteligível, num misto de espanto e constrangimento. Convido o prezado leitor, que certamente conhece alguém assim (e não me surpreenderia nem um pouco se dividisse o teto com o mesmo), a testar tal experiência.
No que tange ao hábito de torcer, pra mim torna-se inevitável, até mesmo como uma forma divertida de autoprovocação, tentar relacionar os sistemas de fé pelos quais já passei ao longo destes trinta e quatro anos de vida com tal tipo de postura. Decididamente, Mamãe Ártemis e Pai Oxossi não seriam de forma alguma os mais indicados para eu me valer como torcedor, sob risco de tudo virar pretexto pra eu querer crivar meio mundo de flechas. Ainda que a beleza natural e selvagem, aliada a um espírito indomável façam das Mulheres-Ártemis aquelas que geralmente me encantam, não acho prudente invocar os atributos da deusa caçadora nem se estiver torcendo sozinho no sofá de casa. Já Mamãe Oxum e Papai Dioniso parecem combinar muito mais com a idéia. A primeira é uma Grande Mãe e, como tal, me acolheria nos momentos de desolação provocados por uma eventual derrota da equipe para a qual eu estiver torcendo. Senhora das Águas, me guiaria se eu um dia decidisse trilhar o caminho de um esporte aquático. E o segundo, mais que o detentor do poder festeiro tão conhecido do senso comum, é a própria essência da metamorfose (presente em toda a natureza, já que tudo está sempre mudando, a começar pelo planeta onde vivemos), além de simbolizar nada menos que todas as formas de catarse (cuja importância no calor de uma partida decisiva dispensa comentários), dentre muitos outros atributos. Penso que o filho de Zeus e Sêmele me ajudaria a aceitar o caráter mutável de todo esporte. E tanto Ele quanto Oxum estão intimamente relacionados às mais diversas expressões de beleza (diferente por exemplo de Afrodite, quase que restrita aos aspectos sexuais da mesma), que eu posso identificar tanto na genialidade de um lance quanto na formosura de certas atletas. Brincadeiras a parte, e com todo o respeito e apreço que eu nutro pelas entidades mencionadas, a verdade é que essa relação por vezes egoísta com o divino tem sua origem em três aspectos fundamentais, que norteiam a humanidade desde os seus primórdios.
Iniciarei por aquele sobre o qual eu estou mais capacitado a discutir: o aspecto biológico. Há alguns anos, numa conversa online com um colega de profissão, o mesmo levantou uma questão da qual até então eu nunca havia me dado conta. Ele discorreu sobre como a espécie humana poderia ser completamente diferente se alterássemos nela um único detalhe: a sua pele. Uma observação extremamente pertinente e que faz todo o sentido. A nossa pele, mais precisamente a epiderme, a camada mais externa da mesma, constituída basicamente de queratina; oculta muito da nossa anatomia, das nossas imperfeições e, especialmente, da nossa natureza animal. Muito do que admiramos e temos como conceito de beleza é constituído em sua maior parte, se não inteiramente, pela epiderme. De fato, nossa epiderme é a única coisa, além do tamanho da massa encefálica, que nos diferencia dos outros primatas; que são bem mais peludos e com bem menos diversidade de pigmentação dérmica. Imaginemos como seria então a espécie humana se sua pele, ou ao menos a epiderme fosse transparente (como ocorre com alguns anfíbios e répteis). Músculos se contraindo e se expandindo, tendões em movimento, nervos e até alguns ossos e órgãos internos seriam visíveis. Toda a nossa anatomia mamífera primata não teria como ser negada. Tal característica tornaria a condição animal do Homo sapiens algo tão óbvio que qualquer tentativa de separação ou deificação da espécie soaria, no mínimo, ingênua. Sabe-se que a dificuldade dos adeptos de certas formas de fé de enxergar o ser humano como aquilo que é (uma espécie animal) reside em grande parte na nossa anatomia externa, que acaba sendo uma grande arma na mão dos doutrinadores mais capazes. O próprio criacionismo (ver meu texto Sobre o Criacionismo) baseia-se na idéia de que o ser humano é uma criatura a parte, de características semi-divinas (“pouco menos que anjos”, como os próprios criacionistas costumam dizer) e que foi criado em separado do resto da natureza. Prometo abordar esse assunto mais profundamente num post futuro, mas adianto que uma das maiores ofensas para um criacionista ou qualquer outro tipo de fanático das grandes religiões monoteístas é ser chamado ou mesmo comparado com qualquer animal. Pior ainda se com os outros primatas. Portanto, não seria errado afirmar que, a partir da alteração desse simples detalhe anatômico, a história da humanidade seria completamente outra. Haveria então outra visão do ser humano sobre si mesmo e o universo. As idéias de "preferidos de um Criador" e "criados à imagem e semelhança Dele" sequer chegariam a existir. Os próprios conceitos de uma Ordem Superior e de religiosidade (se é que chegariam a surgir religiões) seriam bem diferentes. Intolerância por simples diferenças externas não teria sequer motivos para surgir. Sem falar em quão diferentes seriam os conceitos de beleza. O mundo, de fato, seria outro. E que bela idéia para um enredo de ficção científica! Fica a deixa para os meus amigos escritores do gênero, se é que algum deles já não pensou em algo assim.
Engana-se, porém, quem pensa que a idéia de superioridade da espécie humana sobre os outros seres surgiu com as religiões monoteístas. Na verdade ela é bem mais antiga. E é justamente aí que reside o segundo aspecto dessa discussão: o antropológico; relacionado à história da fé nas diversas culturas humanas. As primeiras civilizações, a cerca de 5.000 a.C. ainda possuíam uma visão da divindade e de todo o universo que hoje é denominada panteísta: aonde o próprio cosmo seria uma entidade superior mantenedora e que, portanto, tudo fazia parte dela. Esse pensamento sobrevive hoje nas culturas nativas de todo o mundo e nos sistemas de fé mais antigos e tradicionais do Oriente (Hinduísmo, Budismo e Taoísmo), que apesar de suas diferenças, possuem em comum, cada qual à sua maneira, uma visão do ser humano como parte indissociável de um todo muito maior. Nesses sistemas de fé não há privilégio de nenhuma criatura ou elemento sobre os demais. Para um índio, desde um ser humano até uma pedra possuem alma. Na Europa, as civilizações que melhor ilustram esse tipo de fé são os Minóicos e os Celtas. Isso começou a mudar quando os povos indo-europeus começaram e se espalhar pela Europa, Norte da África e Oriente Médio. Originalmente politeístas (cultuadores de vários deuses), eles se estabeleceram com grande sucesso no Mediterrâneo, originando aquela que mais tarde seria conhecida como civilização grega. Tais culturas eram marcadas pelo que alguns chamam de supervalorização do aspecto masculino do ser humano (representada por comportamentos como o belicismo exacerbado e o domínio de outros povos pelo uso da força), em detrimento dos aspectos considerados femininos (como a troca de conhecimento). Tanto que uma marca registrada desses povos presente até hoje na cultura ocidental, ainda que tenha se atenuado nas últimas quatro décadas, é o papel sempre secundário da mulher – na Grécia Antiga, as mulheres valiam menos que os escravos. Entre os panteístas, homens e mulheres gozam do mesmo status, ainda que haja uma divisão bem clara de tarefas.
Ainda antes do início da Era Cristã, essa nova cultura dominante valorizava cada vez mais os caracteres que consideravam exclusivos do ser humano, algo que pode ser claramente verificado nas representações dos seus deuses, cada vez mais antropomórficas – vide os panteões grego e nórdico. Pouco a pouco, o ser humano passou a ser visto no Ocidente como senhor dos outros seres; direito esse delegado a ele pelos próprios deuses. Esse conceito se fortaleceu com o surgimento das três grandes religiões monoteístas (por ordem, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo) no Oriente Médio. Esses sistemas de fé amputaram de vez o ser humano da natureza, colocando-o num lugar de destaque, praticamente no centro do universo. Tornamo-nos então a obra favorita do Grande Criador. E em certos casos, isso valia apenas para os membros de certo credo ou civilização – os outros sequer eram considerados pessoas, a exemplo de como os europeus viam os índios durante as colonizações e até recentemente, os brancos australianos viam os aborígines. O deus judaico-cristão, com a sua aparência totalmente humana, masculina e completamente assexuada tornou-se, paradoxalmente, o motivo da “imagem e semelhança”, num antropocentrismo patriarcal que vigora ainda hoje em quase todo o planeta. Deuses de aparência animalesca (notadamente os cultuados pelos celtas e os povos africanos) tornaram-se demônios, mostrando que, se a existência do Mal é pura questão de fé, a figura do Diabo é sabidamente uma criação cristã. Sob esse aspecto, o Islamismo parece ser a grande exceção, com a sua divindade suprema sem forma e aparência definindas e cuja qualquer tentativa de representação, inclusive, é terminantemente proibida. Isso teve conseqüências de grande impacto na história, sendo talvez a degradação dos ecossistemas da Terra em escala global a mais óbvia. Afinal, o bicho homem não mais se considerava parte da natureza, mas sim proprietário da mesma, podendo usá-la a seu bel prazer. Essa cisão entre o indivíduo e o mundo, parte essencial da cultura do Ocidente, também é o motivo pelo qual muitas pessoas tendem a sentir e expressar uma fé resumida entre si mesmo e sua divindade, ignorando (e por vezes excluindo totalmente) todos os outros aspectos universais. Diferente do que ocorre nas culturas orientais tradicionais, o homem ocidental, desde o mais culto até o menos instruído, tende a se ver como externo e independente do mundo que observa e com o qual interage. Isso muitas vezes acaba por, como nos exemplos citados no início deste texto, ocasionar uma idéia de que a divindade estaria ao seu lado e não como a ordem superior de todas as coisas. Isso também explica porque o fanatismo religioso é tão raro no Extremo Oriente. Mesmo quando a sua fé apresenta algumas representações que recebem nomes (como, por exemplo, os milhares de deuses do Hinduísmo), o panteísta tem plena noção de que elas são apenas arquétipos de algo muito maior. De fato elas nunca existiram, fisicamente falando. Esse conceito é muito difícil de compreender para um fanático monoteísta, acostumado a personificar sua divindade. A própria filosofia das religiões orientais tradicionais e da hoje denominada fé pagã (representada principalmente pela Bruxaria e o Xamanismo) impede uma visão pessoal e egocêntrica de um Criador ou Ordem Superior.
Cabe aqui um esclarecimento. As primeiras civilizações humanas, bem como os povos nativos atuais, estão bem longe da paz e harmonia pregada por alguns neopagãos mal informados. A história não mostra de forma alguma que os povos panteístas não eram combativos ou que o mundo antes da grande marcha indo-européia seria um paraíso. Muito pelo contrário. Assassinatos, roubos e estupros são tão antigos quanto a própria humanidade. O que ocorreu foi um aumento considerável desses atos quando essa cultura passou a prevalecer sobre as demais nos locais onde se fixou. Filmes como o recente Avatar, de James Cameron, contribuem ainda mais pra essa visão romântica e distorcida dos povos nativos (numa nova versão para o Mito do Bom Selvagem), mostrando-os como indivíduos totalmente destituídos de maldade (coisa que só teria vindo com o “homem civilizado”) e em total harmonia com todas as outras formas de vida. Hoje sabemos que não só sempre houve tribos que eram inimigas no supercontinente americano, como também que muitas delas ajudaram os colonizadores europeus na destruição umas das outras. Sem falar no desmatamento que algumas tribos já provocavam nos Andes e na Região Amazônica séculos antes das grandes navegações. De fato, estudar dá trabalho. É bem mais fácil romantizar e idealizar o passado.
Por fim, o terceiro aspecto refere-se diretamente à filosofia, mais precisamente a Filosofia da Ciência. No século XVII o filósofo, físico e matemético francês René Descartes (1596-1650), ele próprio um dos ferrenhos adeptos das idéias de Pitágoras (entre outras, a de que "tudo são números") introduziu na filosofia e na ciência o pensamento da separação fundamental entre eu e o mundo, que predominou até boa parte do século XX. Tal conceito pressupunha que a observação dos fenômenos não incluía o observador como parte do processo. Este pensamento enraizou-se de tal forma na cultura do Ocidente, que acabou extrapolando para outras áreas, como a religiosidade – aonde, como vimos, a idéia do homem como entidade separada da natureza já era bem forte. Claro que esse pensamento teve conseqüências positivas, notadamente no campo das ciências empíricas (ver meu texto Ciência e Trabalho Científico), como a física, a química e a biologia. Mas também não há como negar as já mencionadas conseqüências negativas, bem visíveis hoje tanto no Ocidente quanto no Oriente Médio. Curiosamente, descobertas efetuadas no século XX dentro da física começaram a abalar tal idéia sobre o universo. A Mecânica Quântica, a Teoria do Caos e a Teoria da Relatividade vieram mostrar que a separação entre o observador e o fenômeno observado não é aplicável, pelo menos em algumas áreas do conhecimento científico. O próprio Princípio da Incerteza, brilhantemente elaborado pelo físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976) ao observar o comportamento das partículas subatômicas, deixa isso bem claro: ao menos no mundo do muito pequeno, a observação de fenômenos não pode de forma alguma excluir o observador, uma vez que a própria presença deste alteraria o que se pretende observar. Alguns físicos mais excêntricos, como o britânico Fritjof Capra (autor, entre outros, do célebre O Tao da Física), sugerem que essa visão holística do universo e dos seus fenômenos deveria ser ampliada à ciência como um todo; o que terminou por originar uma série de discussões e controvérsias cuja diversidade e complexidade me impedem de abordá-las nesse texto.
Cresci ouvindo que fé e religião não se discutiam. Hoje, felizmente, sei que tal afirmação além de falsa tem forte caráter manipulador e totalitário – proibir certos assuntos é sabidamente uma forma eficiente de controle. Tal “mandamento” abre espaço para uma série de intolerâncias, mais discretas e por vezes até divertidas, mas nem por isso menos perigosas. Às vésperas das festas de final de ano, vemos a celebração da hipocrisia. Cita-se o “espírito natalino” ao se abraçar pessoas da qual sabidamente não se gosta apenas para, no começo do ano seguinte, puxar o tapete de meio mundo, passar a perna noutra boa parte do mesmo e pisar na cabeça do restante em nome da “realização dos sonhos e metas do ano novo”. Claro que nem todo mundo é assim, mas é o que sempre ocorre. E não raras vezes poderes sobrenaturais ou divinos são invocados para justificas tais atitudes. Apesar de tudo isso, confesso que ainda mantenho um fio de esperança na humanidade. Talvez seja isso que me dá tanto prazer em gostar de algumas pessoas. Ou talvez seja o contrário: esse fio de esperança tenha sua origem justamente em todo esse amor – sim, pode não parecer, mas eu ainda acredito no amor, graças a essas mesmas pessoas. Não desejo para o futuro um planeta Terra povoado por ursinhos carinhosos totalmente pacifistas e abestalhadamente felizes. Aqueles que sonham com isso (os alienados do mundo cor de rosa, notadamente muitos dos fãs do Avatar de James Cameron) se decepcionarão profundamente. A humanidade nunca foi, não é e nem nunca será assim. Mas acredito que ainda existe a possibilidade das pessoas se respeitarem mais, de aceitarem melhor as suas diferenças. Passos importantes nesse sentido, ainda que de jabuti, já foram e estão sendo dados. Para isso, em primeiro lugar, deveríamos ser menos hipócritas e começar a praticar aquilo que pregamos e afirmamos seguir, independente de qual seja a nossa fé – ou ausência de fé, no caso dos ateus.
Este é o meu último post do ano. Se por ventura o leitor se ofendeu porque vestiu alguma das carapuças citadas, parabéns. Você acabou de perceber que é tão imperfeito quanto os demais representantes da sua espécie, o que já é um grande passo em direção a autoavaliação e o crescimento pessoal, algo sempre válido. Às vezes só mesmo o choque pra fazer alguém acordar. Claro que não tive aqui a intenção de iniciar qualquer tipo de “campanha anti-qualquer-coisa”. Isso seria muito aborrescente-pré-universitário-que-ainda-não-descobriu-o-mundo-real. E tenho plena certeza de que os meus leitores são perfeitamente capazes de discernir uma coisa da outra. Mais uma vez, a palavra chave é respeito. Namaste.

terça-feira, dezembro 21, 2010

DO OVO À GALINHA

Ou como uma divulgação mal feita pode contribuir para a diminuição do interesse pela ciência por parte do público não especializado.

Em julho desse ano, uma notícia bombástica correu o mundo e dizia trazer a resposta para uma das maiores dúvidas da humanidade: quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? A manchete era ruim por dois motivos. Primeiro porque, para quem possui o mínimo conhecimento em biologia, há tempos tal dúvida já havia sido sanada: o chamado ovo amniótico (que traduzindo de uma forma bem simplificada para o público não especializado seria o ovo com casca), que está presente em todas as aves, bem como nos mamíferos ovíparos (hoje representados pelo ornitorrinco e as duas espécies de equidna), teria surgido com os primeiros répteis, e os répteis são os ancestrais desses dois grupos. E segundo porque a mesma alardeava que o que a evolução biológica nos mostrou até agora estaria errado. Criacionistas deram pulos de alegria mundo afora com a notícia, acreditando que ela invalidava a Teoria da Evolução. Teria então a galinha surgido antes dos répteis? O que houve na verdade foi um grande festival de confusões e de divulgações muito mal feitas (pra não dizer amadoras) de informações, principalmente por parte da imprensa, mas também com grande colaboração dos autores da referida pesquisa.
O que motivou o alarde foi o estudo realizado por uma equipe da Universidade de Sheffield e Warwich, no Reino Unido, chefiada pelo Dr. Colin Freeman, do Departamento de Engenharia Material. Eles chegaram à conclusão de que, aparentemente, a galinha teria surgido antes do ovo. Tudo porque uma determinada proteína só é encontrada nos ovos da galinha doméstica (Gallus gallus). Essa proteína é a enzima ovocledidina-17 (OC-17). Entende-se por enzima o tipo de proteína cuja função é atuar como um catalisador, acelerando reações bioquímicas – diferente das proteínas estruturais que, como o próprio nome diz, são responsáveis pela formação da maior parte da estrutura sólida dos seres vivos. Nesse caso, especificamente, a OC-17 seria a responsável pela aceleração do desenvolvimento da casca do ovo. O noticiário transmitiu ao público leigo apenas essa informação, sem maiores esclarecimentos, o que ocasionou a idéia falsa de que ovos com casca seriam impossíveis sem a presença de OC-17, o que não é verdade. Essa proteína é exclusividade dos galináceos, mas outras executam papel equivalente nos ovos de outros animais. 
Tal divulgação porca, aliada aos comentários entusiasmados (e por que não dizer hilários?) dos criacionistas gerou uma série de piadas no meio acadêmico das ciências biológicas. Uma delas diz que, já que a galinha veio antes do ovo, então a primeira delas foi parida – por qual tipo de animal, já seria outra questão. Satirizando o breve êxtase de felicidade criacionista, também se sugeriu que a galinha deveria ter surgido do nada (por incrível que pareça, uma forma de vida surgir aparentemente do nada é algo perfeitamente aceitável no criacionismo, vide o fato de seus adeptos levarem ao pé da letra afirmações bíblicas como a de que o homem teria vindo do barro), como é mostrado na figura abaixo.






Uma verdadeira pérola, que resume muito bem todo o desserviço que foi propiciado em cima dessa notícia pode ser verificada na reportagem sobre a mesma veiculada pelo Jornal da Globo na época. Segue abaixo o vídeo da matéria. Aviso: desaconselhável para aqueles de intelecto mais sensível.



Contudo, culpar apenas a imprensa pelo ocorrido seria uma grande injustiça. Claro que a maior parcela da culpa está nos meios de comunicação. Mas basta dar uma lida nas declarações do Dr. Freeman para perceber que esse fiasco também carrega uma boa dose de responsabilidade sua: "há muito tempo se suspeita que o ovo veio primeiro, mas agora temos a prova científica de que, na verdade, a galinha foi a percussora." Lembremos que Colin Freeman não é biólogo, mas químico. Isso por si só não o torna obrigado a ser um especialista em evolução biológica. Entretanto, o simples bom senso nos diz que devemos conhecer bem um assunto antes de fazer qualquer declaração sobre o mesmo, ainda mais em se tratando de um cientista comentando o próprio trabalho. Acredito que boa parte dessa confusão teria sido evitada se antes ele desse uma pesquisada básica na evolução dos Amniota. Dr. Freeman pisou feio na bola ao cometer tamanho descuido.
A pesquisa da Universidade de Sheffield e Warwich revelou que o ovo da galinha doméstica, com a proteína OC-17, só poderia mesmo ter surgido depois dela. E é verdade que isso só confirmou as suspeitas dos pesquisadores, uma vez que dificilmente uma característica como essa se manteria numa nova espécie, salvo se ela permanecesse muito parecida com a sua ancestral. Foi confirmado que o ovo de galinha veio após a diferenciação da galinha como espécie. E suspeita-se que essa seja uma regra entre as aves. Enfim, abordou-se especificamente uma espécie de ovo e não todos os tipos de ovos. O grande problema é que ao divulgar a descoberta, esqueceu-se desse “detalhe” e o que foi passado é que a galinha teria surgido antes que qualquer tipo de ovo, o que realmente não faz o menor sentido. E a equipe de pesquisa não pareceu se importar nem um pouco com tamanha distorção de informações. Infelizmente essa é uma realidade. Muitos cientistas não estão nem aí se o público não especializado entende ou não as suas descobertas.
Isso nos leva a uma importante reflexão. Este episódio acabou por dar força a alguns conceitos equivocados, como o de que os cientistas “vivem se enganando” e que, portanto “não dá para levar a ciência a sério” – acreditem, eu já ouvi isso. Também não se pode negar a nova munição que ela deu aos criacionistas nas suas doutrinações junto aos menos esclarecidos. Parece pouco, mas especialmente num país como o nosso, cujo governante faz piada com o hábito da leitura, onde o acesso à ciência básica é precário para a maior parte da população e cultiva-se a mentalidade de que a mesma é algo “difícil” e “maçante”, isso pode ter conseqüências desastrosas. O grande público, de modo geral e na maior parte do mundo, está longe de ser um grande fã da ciência. E casos desse tipo, que refletem uma grande incompetência de parte daqueles que possuem o dever de divulgá-la, só serve pra piorar a situação. Esperamos que algo assim não se repita, para o bem da humanidade e do planeta.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

10 INDÍCIOS DE QUE VOCÊ É UM FANÁTICO ATEU

  1. Você tem plena certeza de que adotar o ateísmo é sinônimo de inteligência superior e que todos aqueles que possuem alguma fé são pobres coitados que vivem fora da realidade.
  2. Você considera fé algum tipo de distúrbio mental ou psicológico e alega repetidamente possuir centenas de “evidências científicas” nesse sentido.
  3. Você não apenas acredita seriamente, como também divulga entre o maior número possível de pessoas, que o mundo seria um lugar bem melhor se todas as religiões fossem varridas da face da Terra.
  4. Não economiza ferozes críticas aos agnósticos, acusando-os de serem sem opinião e “em cima do muro”, mas se ofende profundamente quando alguém critica o ateísmo.
  5. Você reclama da intolerância religiosa, mas evita ao máximo a proximidade com indivíduos sabidamente religiosos (todo o seu círculo social é formado por ateus tendo, no máximo, um ou outro agnóstico) já que pra você todos, sem exceção, são potenciais fanáticos terroristas.
  6. Você se irrita com os fanáticos religiosos que relacionam o ateísmo com a imoralidade e a desonestidade, mas apressa-se em mostrar as motivações religiosas de qualquer ato questionável por parte de um sacerdote ou fiel.
  7. Você fica indignado com a existência de cientistas que possuem algum tipo de fé e, por vezes, tenta convencê-los do quanto isso é absurdo – mesmo que eles não tenham pedido a sua opinião.
  8. Muito mais que um simples fã dos trabalhos do cientista Richard Dawkins, você é um seguidor fiel de TODAS as suas idéias e considera “Deus, Um Delírio” a sua obra prima – muito provavelmente porque foi o único livro dele que você leu inteiro.
  9. Você debocha das pregações religiosas, mas não vê nenhum problema em fazer discursos efusivos e intermináveis sobre “os males causados pela fé”.
  10. Você perde totalmente o controle quando alguém sugere a existência de ateus fanáticos.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

10 INDÍCIOS DE QUE VOCÊ É UM FANÁTICO CRISTÃO


Baseado em fontes diversas.

1. Você nega vigorosamente a existência de milhares de Deuses alegados por outras religiões, mas se sente ultrajado quando alguém nega o seu Deus.
2. Você se sente insultado e "menos humano" quando os cientistas falam que evoluímos de formas de vidas primitivas, mas não vê problema nenhum com a alegação bíblica de que fomos criados do barro.
3. Você ri dos politeístas, mas não vê problema em acreditar em uma Trindade.
4. Você fica vermelho de raiva quando ouve as atrocidades atribuídas a Alá, mas não sente absolutamente nada quando escuta sobre como Deus/Jeová exterminou todos os bebês em "Êxodo" e ordenou o extermínio de grupos étnicos inteiros em "Josué" – incluindo mulheres e crianças.
5. Você ri das crenças hindus sobre a deificação de pessoas e das crenças gregas que falam sobre Deuses fazendo sexo com mulheres, mas não vê problema algum em acreditar que o Espírito Santo engravidou a Virgem Maria, que deu a luz a um homem-deus que foi morto e ressuscitou subindo aos céus.
6. Você pretende passar a vida toda procurando pequenas falhas na idade científica estabelecida da Terra (4,5 bilhões de anos), mas não vê nada de mais em aceitar como fatos dados de tribos pré-históricas que sentavam em suas tendas e achavam que o mundo começou a apenas algumas gerações.
7. Você acredita que toda a população mundial, com exceção dos que dividem a mesma fé com você - e excluindo os colegas que você odeia – vão todos passar a eternidade no Inferno, e ainda considera a sua religião como a mais tolerante e amorosa.
8. Enquanto a ciência moderna (biologia, geologia, história, física) não consegue te convencer da evolução dos seres vivos, um idiota qualquer rolando no chão e falando em línguas indecifráveis é tudo o que você precisa para acreditar em um Deus criacionista.
9. Você define que 0,01% é uma alta taxa de sucesso para as preces realizadas e que elas são evidências da sua crença. Mas considera as outras 99,9% das preces que falharam como a simples vontade de Deus.
10. Você conhece menos a Bíblia e a história do Cristianismo do que um Ateu – e ainda assim se considera um cristão.

Na semana que vem: 10 INDICIOS DE QUE VOCÊ UM FANÁTICO ATEU, de minha autoria.

segunda-feira, novembro 29, 2010

OS MOLUSCOS DE LEONARDO DA VINCI

Baseado em material originalmente publicado pelo autor em 2008.


Autoretrato de Leonardo da Vinci (1512).


Leonardo da Vinci (1452-1519) foi um daqueles raríssimos indivíduos que podem ser chamados de gênio sem que isso pareça um exagero. Soberbo pintor, desenhista e escultor; também era talentoso poeta e músico (compunha, cantava e tocava vários instrumentos); além de competente filósofo, anatomista, naturalista, engenheiro, mecânico, matemático, físico e arquiteto. Realizou obras tão grandiosas quanto belas, e teve idéias que produziram anotações antecipando um futuro que muitos até então consideravam impossível. Em plena Renascença já havia projetado máquinas hoje consideradas como os protótipos da bicicleta, do helicóptero, do pára-quedas e do tanque de guerra, entre outros.
Muito embora eu me considere um grande admirador do trabalho artístico de Leonardo, sei que não possuo condições de comentar sobre o mesmo. Estou muito mais habilitado para discorrer a respeito das suas anotações e trabalhos científicos; aspecto este praticamente desconhecido de boa parte do público e mesmo de alguns dos seus ditos apreciadores. Além de estudos extremamente detalhados sobre anatomia humana (com o principal intuito de tornar suas obras artísticas o mais realista possível), baseados principalmente na dissecação de cadáveres (algo então ainda mal visto), ele também dedicava grande parte de seu dia à observação minuciosa de animais e plantas e foi pioneiro no estudo dos fósseis. É considerado por muitos historiadores da ciência como o primeiro botânico do Ocidente. Observando o voo de pássaros e borboletas, elaborou engenhocas que, acreditava, um dia pudessem fazer o homem sair do chão (quase 400 anos antes do avião). E se espantava com o fato de alguns médicos da sua época pretenderem curar doenças sem conhecer a fundo a anatomia do corpo humano. Dizem que não era raro que passasse noites em claro, dedicando-se aos seus diversos estudos. Esta verdadeira obsessão pelo trabalho não deixou espaço para relacionamentos amorosos – muitos biógrafos de Da Vinci, inclusive, afirmam que provavelmente ele morreu virgem.
Sim, o título deste meu post é uma clara referência ao livro A Montanha de Moluscos de Leonardo da Vinci, do paleontólogo de Harvard Stephen Jay Gould (1941-2002), publicado em 2003. Como já se tornara marca registrada em sua obra, nessa coletânea de ensaios sobre história natural Gould analisa, com muito bom humor, vários fatos interessantes envolvendo a evolução das espécies. Quem já leu esse livro sabe que a maioria dos ensaios aborda como a contingência histórica e a fé pessoal de alguns pesquisadores os levou muitas vezes a conclusões equivocadas, ao longo da história da ciência. Dentre os casos relatados, ganha especial destaque o estudo de Leonardo da Vinci sobre conchas marinhas fósseis.
E é justamente esta contingência histórica que pretendo abordar aqui hoje. O texto a seguir, extraído de uma biografia de Leonardo da Vinci elaborada e publicada no Brasil pela editora Martin Claret, retrata o episódio chave desses estudos. Percebe-se no mesmo que Leonardo era de fato um indivíduo muito a frente do seu tempo. E não raras vezes era justamente por isso incompreendido. Não era apenas alguém criativo, perceptivo e brilhante, como também alguém com uma "sede" insaciável de compreender o mundo que o cercava, não se contentando com afirmações do tipo "porque é assim e ponto final". Ele queria compreender como e por que as coisas são como são. Ele não se contentava com respostas prontas ou ausência de respostas. Ele queria ver. Queria entender. Como colocou muito bem o físico Fritjof Capra no seu excelente livro A Ciência de Leonardo da Vinci, há mais de 500 anos atrás ele já fazia ciência de verdade, mais até que muitos contemporâneos seus que se consideravam cientistas.
A maior parte do grande público só conhece o Da Vinci artista. Infelizmente, muitos desconhecem o fato de que a sua forma de analisar o mundo foi de grande contribuição para a evolução da ciência. Por meio dos seus estudos, ele percebeu que o planeta nem sempre foi como é hoje, o que o levou a indagar se as formas de vida também não estariam se alterando desde o seu surgimento na Terra. Pois é, Leonardo da Vinci já havia percebido a evolução biológica, muito embora não tivesse dado a ela este nome na época e nem tenha se empenhado (ou não tivesse tido tempo, tendo em vista suas múltiplas tarefas) em estudá-la mais a fundo.
Talvez tal metodologia não fosse necessariamente uma novidade na época, mas é verdade que os denominados líderes da ciência da Renascença aceitavam-na com ressalvas. Isso ocorria devido ao dogmatismo então presente, que fica evidente na narrativa que se segue.
Moluscos bivalves fósseis (gênero Spondylus) do período cretáceo (100 milhões de anos), encontrados na Itália.


Em Milão, 1490, na corte de Ludovico Sforza, o Mouro, realiza-se o segundo Duelo do Saber; cujos participantes são doutores, deões e professores da Universidade de Pavia.
Por solicitação do próprio duque, Leonardo da Vinci participa do torneio depois de concluir: "Se eu não ceder, talvez fique zangado; falarei sobre o primeiro assunto que me vier á cabeça."
Sobe à cátedra e fala:
-Devo prevenir-vos de antemão que isto me acometeu inesperadamente... foi uma surpresa... Bem, falarei sobre conchas marinhas.
-Estou persuadido de que o estudo dos animais e plantas petrificados, que até aqui foi desprezado pelos homens da ciência, constituirá o começo de uma nova ciência da terra, do seu passado e do seu futuro.
-A informação que acabais de nos fornecer - observou o reitor da Universidade de Pavia, Gabriele Pirovano - é deveras curiosa. Mas permitir-me-ei uma observação: não é mais simples explicar a origem dessas pequenas conchas por uma acidental, divertida e inocente brincadeira da natureza; sobre a qual pretendeis edificar uma nova ciência? Não é muito mais simples explicar a sua origem como tem sido feito até agora pelo Dilúvio Universal?
-Sim, sim, o Dilúvio! - observou Leonardo - Sei que atribuem isso ao Dilúvio. Só que essa explicação não se mantém de pé... Julgai por vós mesmos: o nível da água durante o Dilúvio, de acordo com aquele que o mediu, foi de dez côvados acima das montanhas mais altas. Conseqüentemente, as conchas levadas pelas ondas tempestuosas, deveriam ter caído no cimo, inevitavelmente no cimo, mas não nos lados, nem ao pé das montanhas, e muito menos dentro de cavernas subterrâneas. Além disso, teriam caído em desordem, ao capricho das ondas, mas não, como sempre, no mesmo nível; nem em camadas sobrepostas, como são encontradas. Basta que observeis - e isso é realmente curioso - que os animais que vivem em colônias, tais como os moluscos, as cibas e as ostras, permanecem unidos, como deveriam, ao passo que os de hábitos solitários, ficam à parte, tal como podemos ver ainda hoje nas praias. Tenho freqüentemente observado a disposição das conchas petrificadas na Toscana, Lombardia e Piemonte. Mas se disserdes que não são levadas para lá pela maré, mas que subiram por si próprias, pouco a pouco, com a água, acompanhando a elevação dela, ainda assim essa vossa objeção é facilmente refutável, pois o marisco é um animal tão lento como o caramujo, ou até mais. Não nada, apenas se arrasta sobre a areia e as pedras pelo movimento das suas válvulas, e a maior distância que pode percorrer durante um dia inteiro é de três ou quatro varas. Como, pois, se tiverdes a bondade de explicar-me, Messer Gabriele, podeis conceber que, durante os quarenta dias que o dilúvio durou, segundo o testemunho de Moisés, pode ter-se arrastado esse molusco duzentos e cinqüenta milhas, que é a distância a separar Monferrato das praias do Adriático? Somente os que, desprezando a experiência e a observação, julgam a natureza pelos livros, de acordo com os conceitos dos mercadores de palavras, bem como os que jamais tiveram a curiosidade de olhar com os seus próprios olhos as coisas de que falam, ousarão fazer tal asserção!
Depois de um silêncio constrangedor, finalmente o astrólogo* da corte, Messer Ambrogio da Rosate, propôs, citando Plínio, uma outra solução: as petrificações que teriam somente a aparência de animais marinhos, tinham sido deformadas, na profundeza da terra, pela ação mágica das estrelas.
-Mas então, Messer Ambrogio - retorquiu Leonardo - como explicais o fato de que a influência das mesmas estrelas, no mesmo lugar tenha criados animais não apenas de diferentes espécies, como também, de diferentes idades? Eu próprio descobri que, mediante secções transversais feitas em conchas, bem como em chifres de bois e carneiros e troncos de árvores decepados, é possível determinar com exatidão não somente os seus anos de vida, mas até mesmo os meses. Como explicaríeis o fato de se encontrarem algumas delas inteiras, outras quebradas, outras ainda, cheias de areia, lodo, pinças de caranguejos, ossos e dentes de peixes, e de grandes cascalhos, semelhantes aos que se encontram nas praias, formados de pequenas pedras arredondadas pelas ondas? E as delicadas marcas de folhas nos penhascos das mais altas montanhas? E as algas marinhas presas às conchas, ambas petrificadas, congeladas num único bloco? De onde vem tudo isso? Da influência das estrelas? Mas então, se raciocinarmos desse modo, suponho que não encontrareis em toda a natureza um único fenômeno que não possa ser explicado pela influência mágica das estrelas e, nesse caso, todas as ciências são inúteis, com exceção da astrologia...
O velho doutor em escolástica pediu a palavra e, quando lha concederam, observou que o assunto estava sendo tratado de maneira imprópria, pois apenas uma de duas coisas era possível: ou o problema dos animais das escavações pertencia ao conhecimento inferior, "mecânico", alheio á metafísica, caso em que nada havia a dizer-se do mesmo, já que não havia combinado discutir ali assuntos não relacionados com a filosofia; ou então o problema dizia respeito ao conhecimento verdadeiro e superior, a dialética, e nesse caso, deveria ser discutido de acordo com as leis da dialética, elevando os conceitos á pura contemplação mental.
-Sei de tudo isso - observou Leonardo da Vinci - Também eu pensei muito sobre esse assunto. Só que tudo isso não é como afirmais... Penso que não há alto conhecimento nem conhecimento inferior, mas apenas um único conhecimento, decorrente da experimentação...
-Da experimentação? Ah, então é essa a vossa opinião? Bem, nesse caso, se me permitis, gostaria de perguntar-vos o que seria da metafísica de Aristóteles, Platão, Plotino... de todos os antigos filósofos que falaram sobre Deus, o espírito, as coisas essenciais... Será que tudo isso...
-Sim, nada disso é ciência - retorquiu, calmamente, Leonardo - Reconheço a grandeza dos antigos, mas não neste caso. Na ciência, tomaram o caminho errado. Queriam sondar o que é inacessível ao conhecimento, enquanto desdenhavam o que era acessível. Meteram-se a si próprio e aos outros, durante séculos, num beco sem saída. Porque os homens, quando tratam de assuntos que não podem ser provados, não conseguem nunca chegar a um acordo. Onde não há soluções sensatas, o lugar delas e tomado pela gritaria. Mas aquele que sabe não tem necessidade de gritar. A palavra da verdade é uma só, e quando é pronunciada, devem cessar os gritos dos que disputam. Se porém, os gritos continuam, é porque ainda não há a verdade.
Silenciado, percebeu seu isolamento em meio de toda aquela gente que se considerava servidora da ciência.


* Antes da aceitação cabal das teorias de Johannes Kepler e Isaac Newton, astronomia e astrologia eram estudas juntas, sem distinção, como uma única “ciência”.


Bibliografia recomendada:
CAPRA, Fritjof, A Ciência de Leonardo da Vinci, Cultrix, 2008.
DA VINCI, Leonardo, Anotações de Da Vinci por Ele Mesmo, Madras, 2004.
GOULD, Stephen Jay, A Montanha de Moluscos de Leonardo da Vinci, Companhia das Letras, 2003.

sexta-feira, novembro 26, 2010

PEGADAS NO YOUTUBE

No último dia 02 de outubro, na Estação Ciência, realizou-se o encontro de 30 Anos de Cosmos, a famosa série do astrônomo e maior divulgador da ciência de todos os tempos, Carl Sagan, organizado pelo site Aumanack e o Grupo de Ficção Científica Alpha.
A convite dos amigos organizadores, participei do evento com muito prazer, ministrando uma palestra intitulada Vida na Terra e Vida Extraterrestre, onde procurei mostrar o que se sabe hoje sobre a evolução da vida no planeta Terra e o que se espera encontrar pelo universo afora. Para quem quiser conferir, segue abaixo um trecho da mesma no Youtube, no qual procuro desmistificar algumas idéias equivocadas que o público não especializado possui sobre evolução biológica, além de mostrar um exemplo de evolução muito bem documentado cientificamente (das baleias e seus parentes). Peço minhas mais sinceras e encarecidas desculpas pelo áudio que, infelizmente, não ficou dos melhores. Se não tivesse sido tão teimoso em usar o microfone, o resulto provavelmente seria melhor. Uma prova de que, mesmo com mais de dez anos atuando como professor, a vida sempre nos reserva alguma surpresas. Felizmente, contudo, eu mesmo não apareço muito, uma vez que não trabalho com a minha imagem (mesmo porque tenho plena consciência de que ela não é das mais apreciáveis) e, portanto, o conteúdo da apresentação é o que realmente importa.
Agradeço ao amigo Renato Azevedo, engenheiro eletrônico e escritor, que foi o responsável pelos vídeos. No seu perfil no Youtube também podem ser conferidos trechos das excelentes palestras de Silvia Reis (Nosso Sistema Solar e os Planetas Fora Dele) e do físico e professor Pierluigi Piazzi (que magistralmente partiu do livro Dragões do Éden de Sagan para dar uma super aula de neuropedagogia... e sem microfone), também realizadas no evento. Àqueles que não foram, apenas posso dizer que vocês perderam. Ficam os vídeos para dar um gostinho do que foi essa celebração da vida e obra desse memorável cientista e ser humano que foi Carl Sagan. Maldades a parte, lembro que comentários são mais que bem vindos.





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