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quinta-feira, junho 20, 2013

SOBRE JACARÉS, CROCODILOS E GAVIAIS

A taxonomia (área da biologia que trata da classificação dos seres vivos) divide as espécies atuais da classe répteis (Reptilia) em quatro grupos principais ou ordens: quelônios (tartarugas, jabutis e cágados), esquamatos (lagartos e serpentes), crocodilianos (crocodilos, jacarés e gaviais) e rincocéfalos (hoje representados apenas pelo tuatara da Nova Zelândia). Ao incluirmos as espécies pré-históricas, os répteis somam nada menos que 21 ordens, evidenciando que o grupo já foi muito mais diversificado. Os dinossauros, pterossauros e répteis marinhos (principalmente os ictiossauros e plesiossauros) são os seus representantes fósseis mais famosos.
Os crocodilianos sempre estiveram entre os que mais atraem a atenção do ser humano, num misto de fascínio e temor. Esses predadores habitam as regiões tropicais e subtropicais, vivendo geralmente em rios, lagos e pântanos; sendo que algumas espécies também ocorrem em marinas, manguezais e até braços de mar. Possuem os maiores e mais complexos cérebros entre os répteis atuais e são os únicos cujo coração é completamente dividido em quatro cavidades (duas aurículas e dois ventrículos), à semelhança dos mamíferos e as aves – embora diferente desses, a separação entre o sangue venoso e o sangue arterial durante a circulação ainda não seja completa. São também os únicos que cuidam dos seus filhotes – há espécies de serpentes píton que cuidam apenas dos ovos, abandonando-os logo após a eclosão. Apesar de toda a fama que os precede, nota-se grande confusão por parte do grande público quando se trata de diferenciar os representantes dessa ordem. Entre os equívocos mais comuns figuram a afirmação de que crocodilos e jacarés são a mesma coisa ou que a diferença entre eles estaria no tamanho (crocodilos seriam maiores). Conforme explicarei a seguir, os critérios para defini-los como tais são outros.
Lembrando o que mencionei nos meus posts “O Que é um Dinossauro?” e “Divididospor um Osso”, dinossauros (superordem Deinosauria), crocodilianos (Crocodylomorpha), pterossauros (Pterosauria) e tecodontes (Thecodontia) formam o grande grupo denominado arcossauros (Archosauria). Os primeiros crocodilianos surgiram no período Triássico, pouco antes dos primeiros dinossauros, (há 235 milhões de anos), a partir dos tecodontes – evidências fósseis e anatômicas indicam que os tecodontes seriam os ancestrais dos demais arcossauros. Mas os tipos atuais (subordem Eusuchia) só apareceriam no período Cretáceo (há cerca de 85 milhões de anos). Diferentes das espécies modernas, os primeiros crocodilianos eram animais completamente terrestres. Ao longo do período Jurássico desenvolveram diferentes adaptações, desde tipos de hábito anfíbio como os atuais até espécies totalmente adaptadas à vida marinha. Aos interessados em maiores detalhes a respeito da evolução e taxonomia desses animais indico os seguintes links, do excelente site Palaeos.




Mas quais seriam afinal as diferenças entre um crocodilo e um jacaré? Primeiramente, cabe esclarecer que o tamanho não é um critério seguro para esse fim. Como veremos, há espécies de crocodilos menores que a maioria dos jacarés. Os crocodilianos atuais são divididos em três tipos diferentes (ou três famílias, taxonomicamente falando), num total de 25 espécies. 

Crocodilo de água salgada (Crocodylus porosus).

Os crocodilos (família Crocodylidae) constituem a maioria das espécies: três nas Américas e as demais espalhadas pela África, Índia, Sudeste Asiático e norte da Oceania. A palavra deriva do grego krokodeilos (kroké = pedra, drilos = verme), inspirado pela visão desses animais tomando sol sobre rochas e bancos de areia. O tamanho varia de menos de 2m até 8,5m de comprimento – o crocodilo de água salgada ou crocodilo de estuário, atualmente o maior réptil do mundo. 

Jacaré de papo amarelo (Caiman latirostris).

A denominação brasileira jacaré (do tupi iakaré) e a norte-americana aligator (provável corrupção fonética para o inglês de el lagarto, termo um tanto respeitoso por parte dos primeiros colonizadores espanhóis) são usadas para o mesmo tipo de animal (família Alligatoridae), que na maior parte do mundo é conhecido como caiman e como caimão em alguns países de língua portuguesa. São seis espécies na América do Sul, uma no sudeste dos Estados Unidos (a única a viver num clima um pouco mais frio), e uma na China. Alguns mal chegam a um metro de comprimento, mas o aligator americano (Alligator mississipiensis) e o jacaré Açu (Melanosuchus niger) são os gigantes da família, podendo chegar a 6m. A maioria mede entre 2m e 2,5m. Com exceção das duas espécies maiores, movem-se em terra firme com maior desenvoltura que os outros crocodilianos e os menores até escalam troncos caídos.


Gavial do Ganges (Gavialis gangeticus) macho.

Muita gente desconhece o terceiro tipo (família Gavialidae), representado por uma única espécie (alguns autores atualmente preferem incluir uma segunda espécie, que comentarei a seguir): o gavial do Ganges, que apesar dos assustadores 7m de comprimento é inofensivo para seres humanos. Esse animal é facilmente reconhecido pelas mandíbulas muito longas e estreitas, uma especialização para capturar peixes. Ocorre na bacia hidrográfica do rio Ganges, na Índia, onde é considerado sagrado pelo povo hindu. Gavial é a latinização do nome gharial, inspirado pela protuberância que os machos apresentam na região das narinas (possível chamariz sexual), que lembraria uma ghara, tipo de tigela indiana.
Seguem as principais diferenças entre essas três famílias. Propositalmente exclui aquelas mais específicas, concentrando-me nas que seriam facilmente observáveis por qualquer pessoa, uma vez que dizem respeito à estrutura do crânio e dentição. 


Diferenças anatômicas (crânio e dentição) entre crocodilos, jacarés e gaviais (de crocodilians.com).

Crocodilos (família Crocodylidae):
  • Cabeça em formato triangular.
  • Dentes de tamanhos variados, visíveis tanto na mandíbula superior quanto na mandíbula inferior quando o animal está de boca fechada, lembrando um sorriso.
  • Narinas muito próximas.

Jacarés (família Alligatoridae):
  • Cabeça mais curta e mandíbulas mais arredondadas em comparação com os crocodilos.
  • Dentes de tamanhos variados, sendo que os grandes dentes da mandíbula inferior se encaixam sob cavidades da mandíbula superior quando o animal fecha a boca, deixando apenas os dentes superiores visíveis.
  • Narinas mais afastadas.

Gavial (família Gavialidae):
  • Caixa craniana mais curta em comparação com os demais crocodilianos; mandíbulas extremamente longas e estreitas.
  • Cerca de cem dentes de tamanho uniforme, quase todos visíveis quando o animal fecha a boca.
  • Narinas muito próximas e muito elevadas, dando à parte anterior das mandíbulas um aspecto arredondado e formando uma protuberância, mais acentuada nos machos.

A estrutura da mandíbula, bem como o tamanho e a disposição dos dentes estão diretamente ligados ao tipo de presa. Quase todos os crocodilianos são predadores generalistas e oportunistas, caçando praticamente qualquer animal que tenham força para abater e não dispensando nem carniça. Mandíbulas largas com dentes de tamanhos diferentes indicam variedade no tamanho e forma das presas. As mais comuns são peixes, insetos, crustáceos, anfíbios, além de répteis, aves e mamíferos de pequeno porte (incluindo crocodilianos menores). As espécies maiores acrescentam à sua dieta tartarugas e também mamíferos e aves de maior tamanho. Animais terrestres que se aproximam para beber são arrastados para a água e afogados. Como a morfologia das mandíbulas torna esses répteis incapazes de mastigar, as presas pequenas são geralmente engolidas inteiras, enquanto as maiores são despedaçadas com vigorosos movimentos de cabeça e giros de corpo. Os músculos que abrem a boca são fracos (a ponto de um homem poder mantê-la fechada apenas usando ambas as mãos), mas os que a fecham são incrivelmente fortes, com um impacto de até 15 toneladas nas espécies maiores (ERICKSON; LAPPIN; VLIET, 2004) - mais que suficiente para impedir a fuga da presa ou decepar um membro. A grande exceção é o gavial do Ganges, especializado na captura de peixes e apenas ocasionalmente alimentando-se de restos de animais mortos, anfíbios e pequenas aves aquáticas. Há ainda duas espécies de crocodilo, conhecidas como “falsos gaviais”, que apresentam um focinho mais estreito e dentes com menor diferença de tamanho em comparação aos outros membros da família. Tal anatomia denota uma preferência por peixes, além da incapacidade de capturar animais maiores, o que os torna um tanto próximos nos hábitos alimentares ao gavial do Ganges, ainda que com uma diversidade um pouco maior de presas. Adaptação semelhante é encontrada nos dinossauros da família Spinosauridae (Spinosaurus, Angaturama, Baryonix). Tudo indica que esses animais eram predadores ativos, mas suas mandíbulas estreitas constituem evidência de uma dieta especializada em presas menores. Restos de peixe, incluindo escamas e dentes, foram encontrados na cavidade estomacal de um fóssil de Baryonix - alguns paleontólogos sustentam que essa espécie também seria carniceira. Embora grandes e fortes, os Spinossaurídeos provavelmente não seriam capazes de abater as enormes presas de outros dinossauros caçadores gigantes de mordida mais devastadora, como o Allosaurus ou o Tyrannosaurus rex (veja meu post “Predador ou Carniceiro?” para maiores informações sobre a morfologia e possíveis hábitos alimentares do T. rex).

Gavial/falso gavial da Malásia (Tomistoma schlegelii).

Recentemente a análise filogenética do falso gavial da Malásia revelou uma maior semelhança e, consequentemente, um maior parentesco dessa espécie com o gavial do Ganges (WILLIS et al., 2007). Ainda que sua morfologia a aproxime dos crocodilos (PIRAS et al., 2010), alguns taxonomistas, priorizando as afinidades moleculares, passaram desde então a considerá-la como um gavial verdadeiro. Alcançando facilmente os 6m, também não oferece perigo ao homem.
O habito de caçador oportunista, que “não escolhe” as suas presas, acaba sendo o grande responsável pelo fato de alguns crocodilianos serem os únicos predadores que caçam efetivamente seres humanos. Leões, tigres, onças, hienas, ursos pardos e polares podem atacar pessoas quando escasseiam as suas presas habituais ou quando ficam impedidos de fazê-lo por um ferimento, doença ou velhice. Ocorre que esses crocodilianos não possuem o que se poderia chamar de presas habituais. Para eles, humanos são presas como qualquer outra. Há vários episódios documentados pelo mundo, de pessoas devoradas a amputações, perfazendo uma média de dois milhões de ataques por ano. O maior número de relatos de ataques vem da África, Sudeste Asiático e Austrália, tendo como principais vítimas, além dos povos nativos desses locais, os turistas japoneses – conhecidos por sua imprudência, aproximando-se demais e sem a mínima segurança por uma boa foto ou filmagem. Para aqueles de curiosidade mais mórbida, há vários flagrantes em vídeo disponíveis na internet de turistas nipônicos descuidados que viraram comida de ursos kodiak, crocodilos de água salgada ou grupos de leões – e é sempre bom avisar: são cenas muito fortes, totalmente desaconselháveis para cardíacos e os mais impressionáveis. O aligator americano também já fez vítimas humanas, assim como o crocodilo americano (C. acutus) com sua ampla distribuição geográfica, do sul da Flórida ao Equador. Na Amazônia registram-se ataques do jacaré Açu, enquanto na Venezuela e na Colômbia há dois ou três relatos envolvendo o crocodilo de Orinoco (C. intermedius), cujo comprimento pode chegar a 7m.
A maioria das espécies de crocodilianos ainda corre sério risco de extinção. Muitas ainda são caçadas pelo valor comercial da sua pele, mesmo depois da criação de fazendas de jacarés e crocodilos pelo mundo. As maiores são alvos frequentes da caça esportiva. Mas o maior inimigo desses animais é mesmo a degradação dos seus habitats. Alguns como o gavial do Ganges, vivem em locais onde o desmatamento e a poluição atingiram níveis alarmantes. Outros como o crocodilo de Orinoco e o aligátor americano estão confinados a áreas extremamente pequenas. Faz parte dos deveres daqueles que lidam com o ensino de ciências e a educação ambiental o esclarecimento aos demais que esses magníficos répteis, que estão aqui há muito mais tempo que nós, têm seu lugar na natureza. Você não precisa querer abraçar um crocodilo ou nadar ao seu lado. Mas ele tem o mesmo direito à Terra que você. E por isso merece o mínimo respeito.


sábado, dezembro 15, 2012

MAIS SOBRE VIDA EXTRATERRESTRE

Como complemento aos meus posts anteriores referentes à possibilidade de vida extraterrestre, segue um excelente texto do engenheiro químico e consultor empresarial Francisco Quiumento, onde o mesmo inclui como fatores a serem considerados o nível civilizatório e a escala econômica de uma cultura:

http://francisco-scientiaestpotentia.blogspot.com.br/2012/12/aliens-ou-vida-extraterrestre-iii.html

Boa leitura.


terça-feira, dezembro 04, 2012

AS MUDANÇAS NA EQUAÇÃO DE DRAKE

Frank Drake e sua equação (foto: divulgação).


Na minha palestra “Vida na Terra e Vida Extraterrestre”, cujo resumo pode ser conferido neste blog (e lembrando que todos os leitores são livres para divulgá-lo e mesmo imprimi-lo, desde que mantidos os devidos créditos), mencionei a famosa equação do Professor Emérito de Astronomia e Astrofísica pela Universidade da Califórnia e grande amigo de Carl Sagan (1935-1996), Dr. Frank Donald Drake. Essa equação visa estimar a quantidade de civilizações extraterrestres cujo nível tecnológico permitiria a emissão de sinais de rádio a nível galáctico e, consequentemente, um possível contato com o planeta Terra. Como complemento ao material supracitado e principalmente para maiores esclarecimentos, tomei a decisão de apresentá-la, incluindo as mudanças que ocorreram na mesma desde quando foi elaborada, em 1961.
A Equação de Drake, como ficou conhecida, se popularizou por meio da série de TV e do livro “Cosmos” (1980) de Sagan, além de ter sido divulgada em numerosos outros livros sobre Astronomia, bem como de pseudociência, como Eram os Deuses Astronautas?” (1968) de Erich Von Däniken, em revistas de ufologia etc. Apesar de figurar em algumas publicações de credibilidade duvidosa (que via de regra, distorcem tendenciosamente os seus resultados, como veremos a seguir), a equação é séria, bem fundamentada e, diga-se de passagem, extremamente simples:




Onde as estimativas originais de Drake foram as seguintes:

R* = número de estrelas da Via Láctea. Estimativa: 200 bilhões.
fp = fração estimada de estrelas com planetas orbitando ao redor (0,5).
ne = fração estimada de planetas em um dado sistema, ecologicamente adequados para o desenvolvimento de vida (entre 0,1 e 1,0).
fl = fração estimada de planetas onde a vida se desenvolveu (entre 0,1 e 1,0).
fi = fração estimada de planetas onde se desenvolveu vida inteligente – consciência, raciocínio e cultura. (1,0).
fc = fração estimada de planetas habitados por vida inteligente onde se desenvolveu uma civilização capaz de se comunicar (0,1 a 0,9).
L= fração estimada de tempo em que essa civilização enviou sinais (0,000001).
N= número estimado de civilizações tecnicamente avançadas na Via Láctea (100 mil).


Pseudocientistas e charlatões dos mais diversos tipos adoram distorcer esse valor final, indo de resultados que vão de 200 mil até a casa dos milhões. Justamente pela sua simplicidade, a Equação de Drake possui variáveis que permitem uma gama considerável de resultados. Isso porque Drake estava preparado para possíveis descobertas científicas que pudessem alterar o resultado inicialmente obtido. De fato, ele nunca afirmou que esse número era definitivo. Na verdade, nenhum cientista realmente ético faria algo semelhante numa situação dessas. E é de conhecimento geral como pessoas de má fé utilizam brechas em coisas que vão de legislações a teorias científicas para criar seus embustes. Entretanto, muitos pesquisadores, especialmente da área das ciências biológicas, observam que ele foi por demais otimista nas suas conclusões. Na verdade, ele realmente cometeu um equívoco muito comum por parte daqueles que não estão familiarizados com a evolução biológica.
Antes, porém, comentarei outras alterações feitas na equação ao longo dessas cinco décadas. Duas delas são particularmente interessantes, apesar de interferirem pouco no resultado estipulado por Drake. O astrofísico norte-americano Michael Seeds no seu livro “Horizons: Exploring the Universe” (1993) relaciona o número de estrelas atualmente existente na galáxia, N*, com a taxa de formação de estrelas. Em 2005 Alexander Zaitsev, engenheiro e astrônomo da Academia Russa de Ciências incluiu as variáveis nr (“Número de Reaparição”, o número médio de vezes que uma civilização nova reaparece no mesmo planeta após a extinção de uma civilização anterior, que teria surgido uma única vez) e fm (“Fator de Comunicação”, a fração de civilizações comunicativas que realmente se interessariam por transmissão interestelar), logo após a variável fc. Esses fatores provocam uma alteração mínima no resultado final (no máximo um aumento de 1%), mas especialmente as duas novas variáveis merecem atenção, uma vez que o ser humano não se comunica ativamente por sinais de rádio interestelar (com única exceção do episódio do radiotelescópio de Arecibo, o projeto SETI apenas recebe sinais, não os envia) e a possível extinção de uma civilização seguida pela ascensão de outra é um fator a ser considerado.
A coisa realmente começou a mudar quando vários astrônomos e astrofísicos perceberam o risco de colisão ou severa mudança climática causada por perturbação gravitacional decorrente da aproximação a algum objeto massivo. Óbvio que a gravidade exercida pela estrela não permite que um planeta escape da sua órbita e saia vagando por aí. Ocorre que as estrelas também se movem. As galáxias estão sempre em movimento. E existe o risco real de uma colisão ou desestabilizadora aproximação com outra(s) estrela(s), inclusive de que os planetas que orbitam a estrela em questão colidam com outras estrelas ou com planetas de outras estrelas, ou sejam bombardeados por objetos semelhantes à nossa nuvem de Öort ou nosso cinturão de Kuiper, entre outros fatores que poderiam extinguir a vida num planeta qualquer. Além disso, não se pode esperar que a órbita do Sol ou outra estrela localizada nas regiões periféricas da galáxia sejam estáveis a longo prazo. Esse fator torna o resultado final no mínimo 100 vezes menor daquele que Drake presumiu.
Mas o fator que altera definitivamente o resultado da Equação de Drake diz respeito à evolução da vida na Terra. Drake estipulou que o surgimento de vida considerada inteligente seria inevitável num planeta onde simplesmente a vida já existisse (fi = 1,0, ou seja, 100% de chance). Contudo, o atual conhecimento sobre os processos evolutivos mostra que acreditar nisso seria no mínimo ingênuo. No último capítulo do seu livro “Vida Maravilhosa” (1989), o paleontólogo norte-americano Stephen Jay Gould (1941-2002) aponta que a história da vida na Terra apresentou muitas possibilidades, das quais poucas sobrevivem nos dias atuais. Ele propõe imaginarmos essa história como um filme, onde podemos retornar e pausar certas cenas, observando que pequenas mudanças nelas poderiam fazer toda a diferença. A hipótese da Terra Rara, que surgiu com o livro de mesmo nome (Ward & Brownlee, 2000) expõe de maneira bastante didática porque a vida multicelular seria um fenômeno raro, ainda que a vida formada por seres unicelulares possa ser relativamente comum no universo. Conforme explico no material supracitado, a evolução biológica não possui qualquer direção ou propósito, e uma pequena mudança durante o processo (extinções em massa, troca de material genético etc) pode alterar todo o seu curso. Ela é marcada pelo acaso. Como dito anteriormente, trata-se um equívoco relativamente comum por parte dos não biólogos. Os críticos podem argumentar que conhecemos apenas um tipo de vida e que o universo pode conter vida totalmente diferente daquilo que conhecemos como vida, inclusive com uma evolução totalmente diferente. Todavia, isso não muda os fatos. Primeiro porque não temos qualquer evidência de tais formas de vida. Segundo porque as hipóteses nesse sentido, como as que lidam com elementos químicos que possam substituir aqueles que conhecemos como constituintes básicos do seres vivos (silício no lugar do carbono, arsênio no lugar do fósforo etc.), mostram que essa suposta vida exótica seria ainda mais rara. E terceiro que uma provável biosfera diferente de tudo aquilo que conhecemos como vida será tratada como algo diferente, talvez até mesmo dando origem a toda uma nova área da ciência para estudá-la.
O fator do acaso relacionado à evolução biológica faz com que o resultado final da Equação de Drake seja um modesto número entre 0 e 10. Alguns pesquisadores arriscam um valor de apenas duas civilizações avançadas na nossa galáxia capazes de se comunicar conosco (resultado = 2,31). Há aqueles que afirmam que sejamos únicos na Via Láctea. E há ainda os mais otimistas, defendendo a existência de um número maior de civilizações menos avançadas, com as quais não poderíamos nos comunicar – um número que poderia chegar a 200. De qualquer maneira, se não estamos sozinhos, nossos vizinhos mais próximos devem estar a muitos anos-luz de distância.


Bibliografia recomendada:
DAWKINS, Richard, A Grande História da Evolução, Companhia das Letras, 2009.
GOULD, Stephen Jay, Vida Maravilhosa, Companhia das Letras, 1990.
SAGAN, Carl, Cosmos, Villa Rica,1983.
SEEDS, Michael A. e BACKMAN, Dana, Horizons: Exploring the Universe, Brooks Cole, 12º ed., 2012.
WARD, Peter D. e BROWNLEE, Don, Terra Rara, Campus, 2000



terça-feira, novembro 27, 2012

MINHAS PALESTRAS NO IV ENCONTRO DE COSMOS



VIDA NA TERRA E VIDA EXTRATERRESTRE

Dia 01/12, sábado, 17h.

Poucas coisas na Terra são tão fascinantes quanto à diversidade de seres vivos que a povoa. E um dos maiores mistério da ciência é como a vida teria surgido. Embora hoje já se tenha uma ideia de quando a vida terrena começou, ainda não sabemos como esse fenômeno tão singular teve origem. O mistério torna-se ainda maior se pensarmos na vida não apenas no nosso planeta, mas no universo. Seria a vida um fenômeno universal ou localizado? Seria ela a regra no cosmo ou uma grande exceção? É possível que haja vida em outros planetas? Se sim, eles seriam parecidos conosco? Existiria vida em Marte?
Carl Sagan tinha especial interesse na busca por vida extraterrestre e se uniu a especialistas de diversas áreas numa verdadeira caça a evidências nesse sentido, ao mesmo tempo em que repudiava formas não científicas fazê-lo. Tal atitude pioneira é considerada a semente da área de pesquisa científica interdisciplinar hoje conhecida como Astrobiologia.
Nesta palestra será abordado o conceito de vida, a história da vida na Terra, os mecanismos evolutivos, a possibilidade de vida fora da Terra e as pesquisas nessa área. Também serão tratados conceitos errôneos e idéias deturpadas presentes no senso comum referentes à evolução biológica e à possibilidade de vida extraterrestre.

Referências:
  • ASIMOV, Isaac, Civilizações Extraterrenas, Nova Fronteira, 1980.
  • DAWKINS, Richard, A Grande História da Evolução, Companhia das Letras, 2009.
  • GLEISER, Marcelo, Criação Imperfeita, Record, 2010.
  • GOULD, Stephen Jay, Darwin e os Grandes Enigmas da Vida, Martins Fontes, 1992.
  • GOULD, Stephen Jay, Vida Maravilhosa, Companhia das Letras, 1990.
  • SAGAN, Carl, Cosmos, Villa Rica, 1983.
  • SAGAN, Carl, O Mundo Assombrado Pelos Demônios, Companhia das Letras, 1995.
  • WARD, Peter D. e BROWNLEE, Don, Terra Rara, Campus, 2000.

Na WEB:





MICROORGANISMOS: UMA VISÃO CÓSMICA

Dia 02/12, domingo, 16h.

Além de serem as mais antigas formas de vida, os seres unicelulares (constituídos por uma única célula) estão literalmente por toda parte: da água que bebemos ao interior de todos os seres multicelulares. Nas palavras do paleontólogo norte-americano Stephen Jay Gould (1941-2002): “As bactérias representam o grande sucesso da história da trajetória da vida. Elas ocupam domínio mais amplo de ambientes e possuem variabilidade bioquímica maior que qualquer outro grupo. São adaptáveis, indestrutíveis e surpreendentemente diversificadas”. Em seu livro “Microcosmos” (2004) Lynn Margulis (1938-2011), microbióloga e ex-esposa de Carl Sagan, defende que esses seres seriam os grandes “condutores” da evolução da vida na Terra. Além disso, alguns dos mais simples desses seres, denominados extremófilos, vivem em locais cujas características físico-químicas seriam letais para qualquer forma de vida mais complexa. Entenda porque esses seres tão pequenos são os verdadeiros senhores do planeta e nunca são ignorados no planejamento das viagens espaciais.

Referências:
  • ALTERTHUM, Flávio e TRABULSI, Luiz Rachid, Microbiologia, Atheneu, 2008.
  • FUTUYMA, Douglas J., Biologia Evolutiva, Funpec, 2003.
  • HORIKOSHI, Koki e GRANT, W. D., Extremophiles – Microbial Life in Extreme Environments, John Wiley, 1998.
  • MARGULIS, Lynn e SAGAN, Dorion, Microcosmos – Quatro Bilhões de Anos de Evolução Microbiana, Cultrix, 2004.
  • SAGAN, Carl, Cosmos, Villa Rica, 1983.
  • UJVARI, Stephan Cunha, História e suas Epidemias – A Convivência do Homem com os Microorganismos, Senac Rio, 2003.
  • WARD, Peter D. e BROWNLEE, Don, Terra Rara, Campus, 2000.

Na WEB:




quarta-feira, novembro 14, 2012

IV EVENTO DE COSMOS



E estamos aí novamente, pelo quarto ano consecutivo. Para aqueles que ainda não conhecem esse evento anual, ele celebra a obra do astrônomo e pioneiro da divulgação científica junto ao grande público, Carl Sagan (1934-1996). O encontro conta desde a sua primeira edição com um ciclo de palestras, apresentações de vídeos da série Cosmos e exposições.
A série televisiva Cosmos, criada por Sagan e lançada inicialmente em 1980, chegou ao Brasil em 1982 e obteve grande sucesso no mundo inteiro. O tema principal da série era a Ciência e as relações dela com a vida na Terra e em seus episódios foi possível conhecer um pouco mais sobre os outros planetas, quasares e questões ecológicas que afetam diretamente a sobrevivência da raça humana no planeta. O grande mérito da série foi ter antecipado problemas ambientais que nos afetam hoje em dia, como o efeito estufa e o aquecimento global.
Carl Sagan foi um homem sempre a frente de seu tempo, uma pessoa sem medo de errar e que ensinou gerações adquirirem amor pela ciência e o planeta Terra.

Local: Escola Municipal de Astrofísica - Av. Pedro Álvares Cabral, s/n, portão 10 (para pedestres) ou portão 3 para estacionamento - Parque do Ibirapuera, São Paulo/SP


PROGRAMAÇÃO*

Dia 01/12 (sábado):

13h00 – Bate papo com Danilo Beyruth
Danilo Beyruth é ilustrador e quadrinista brasileiro, responsável pela quadrinização de O Astronauta Magnetar.

14h00 – Exploração e Colonização: o Sistema Solar e Além - A humanidade sempre explorou, fazendo as mais importantes descobertas que alteraram profundamente seu modo de vida. A nova fronteira da exploração é o espaço, e se não possuímos ainda as fabulosas naves da ficção científica, com nossos robôs e telescópios temos realizado uma nova era de descobrimentos que revolucionaram nosso entendimento do universo e de nosso lugar nele. Nesta palestra são abordadas as histórias dessas viagens de descobrimento, os meios com que foram realizadas, e o que está por vir no futuro próximo.
Renato Azevedo

15h00 – Planeta Terra: a relação entre o ser humano e o ecossistema - Um dos temas mais discutidos atualmente nas mídias e meios de comunicação é o meio ambiente, propostas de recuperação e preservação ambiental, conceitos de sustentabilidade, ideias novas, grandes e pequenas, para a solução ou pelo menos a mitigação de problemas ambientais causados pelo próprio ser humano. Mas, tais propostas são viáveis? Será possível manter o desenvolvimento tecnológico e o crescimento populacional diminuindo os impactos causados ao ecossistema? Quanto tempo o planeta resiste? Convidamos a todos à discussão e reflexão.
Melina Alvarez

16h00 – Planetas Extrasolares - Há muito a humanidade tem questionado se existiriam planetas fora do nosso Sistema Solar, se seriam parecidos com a Terra e se neles poderia haver vida.  Com o avanço da tecnologia as descobertas nesse campo têm crescido a uma velocidade espantosa, e mais de 800 planetas extrasolares já foram descobertos até o momento.  Quais suas características?  Como são seus sistemas planetários?  Estão em órbita de estrelas parecidas com nosso Sol?  Poderiam abrigar vida? Tais questões serão discutidas nesta palestra, bem como as mais recentes descobertas.
Silvia Reis

17h00 – Vida na Terra e Vida Extraterrestre - Poucas coisas na Terra são tão fascinantes quanto à diversidade de seres vivos que a povoa. E um dos maiores mistério da ciência é como a vida teria surgido. Embora hoje já se tenha uma idéia de quando a vida terrena começou, ainda não sabemos como esse fenômeno tão singular teve origem. O mistério torna-se ainda maior se pensarmos na vida não apenas no nosso planeta, mas no universo. Seria a vida um fenômeno universal ou localizado? Seria ela a regra no cosmo ou uma grande exceção? É possível que haja vida em outros planetas? Se sim, eles seriam parecidos conosco? Existiria vida em Marte?
Átila Oliveira

18h00 – Apocalipse - Quais as verdadeiras causas de um eventual fim do mundo? Elas não estão escritas em tábuas de argila, calendários ou em algum documento. Elas são os atos do dia-a-dia do ser humano. Neste bate papo, confira o que pode levar a humanidade ao seu verdadeiro fim.
Alan Uemura e Átila Oliveira


Dia 02/12 (domingo):

13h00 – Presente de um Mundo Distante - Lançada como um bilhete dentro de uma garrafa no imenso oceano cósmico, a mensagem do disco dourado na Voyager diz muito mais a respeito do anseio da raça humana em encontrar aqueles que, não importa o quão avançados (ou não) sejam, poderão ser considerados seus iguais. Somos todos “poeira das estrelas”, lançando olhares assombrados e esperançosos para a imensidão do universo.
Douglas Camillo Reis 

14h00 – Clonagem - Pessoas criadas geneticamente seriam as melhores para a exploração espacial? Como a ciência e a ficção vêem essa questão?
Grupo Galáctica

15h00 – Vida e Morte das Estrelas - Ao olharmos para o céu noturno podemos observar as estrelas, que nos parecem belas, eternas e imutáveis.  Mas na verdade o universo está em constante transformação.  As estrelas são todas iguais?  Qual seu tempo de vida?  Como nascem e morrem?  Conheça mais sobre esses astros, suas características como composição química e temperatura, e descubra que somos todos “poeira de estrelas”.
Silvia Reis

16h00 – Microorganismos: Uma Visão Cósmica - Além de serem as mais antigas formas de vida, os seres unicelulares (constituídos por uma única célula) estão literalmente por toda parte: do ar que respiramos ao interior de todos os seres multicelulares. Nas palavras do paleontólogo norte-americano Stephen Jay Gould (1941-2002): “As bactérias representam o grande sucesso da história da trajetória da vida. Elas ocupam domínio mais amplo de ambientes e possuem variabilidade bioquímica maior que qualquer outro grupo. São adaptáveis, indestrutíveis e surpreendentemente diversificadas”. Em seu livro “Microcosmos” (2004) a microbióloga Lynn Margulis (1938-2011), defende que os microorganismos seriam os grandes “condutores” da evolução da vida na Terra. Além disso, alguns dos mais simples desses seres, denominados extremófilos, vivem em locais cujas características físico-químicas seriam letais para qualquer forma de vida mais complexa. Entenda porque esses seres tão pequenos são os verdadeiros senhores do planeta e nunca são ignorados no planejamento das viagens espaciais.
Átila Oliveira 

17h00 – Explorando o Sistema Solar e Além: Viagens Espaciais Tripuladas - O ser humano sempre teve o impulso inato de explorar, e graças a isso saímos das cavernas, realizamos as grandes navegações e descobrimentos, e já começamos a explorar nosso sistema solar. Seguindo o "pequeno passo" de Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua na missão Apollo 11, será apresentado um histórico das principais missões espaciais já realizadas, além de projeções para o futuro.
Renato Azevedo 

18h00 – Fator Humano na Exploração Espacial - O que seria necessário para o homem viajar pelo espaço? As grandes ameaças a uma missão espacial afetariam o bem-estar mental da tripulação e a forma como o astronauta irá interagir uns com os outros.
Alan Uemura



PALESTRANTES

Alan Uemura: Jornalista e editor do site Aumanack – Diversãosem Limites.
Átila Oliveira: Biólogo e educador; mantém o blog Pegadas de Um Dinossauro do Século XXI.
Douglas Camillo Reis: Escritor e astrônomo amador.
Melina Alvarez: Bióloga atuante na área de ecologia e meio ambiente.
Renato Azevedo: Escritor e engenheiro eletrônico.
Silvia Reis: Astrônoma amadora, psicopedagoga e autora de 10 livros na área da educação.

(*) Programação sujeita à alterações.

Organização: Aumanack e Cosmos Legacy.

segunda-feira, setembro 03, 2012


DIA DO BIÓLOGO

Biologia, mais que uma ciência. Mais que uma profissão; um estilo de vida.

Parabéns a todos nós pelo nosso dia.



terça-feira, julho 24, 2012


A PIRÂMIDE DA ARGUMENTAÇÃO


ou... por que refutações verdadeiras requerem verdadeiro conhecimento sobre o assunto e não apenas orelhadas e trechos de Wikipedia?


Depois de um bom tempo sem atualizar o blog, retorno com um post que talvez interesse àqueles que curtem ciência e, em especial, os debates envolvendo cientistas e não cientistas. Em 2010 postei o texto Sobre Falácias, de Guilherme Magalhães Gall; onde o autor discorre em detalhes sobre os vários recursos de desonestidade intelectual utilizado por fanáticos religiosos, pseudocientistas e toda a classe daqueles que se incomodam e/ou por algum motivo não aceitam determinadas teorias científicas, em debates com cientistas. Para aqueles que conheceram o blog há pouco tempo e ainda não leram tal artigo, considero de suma importância fazê-lo antes de seguir por aqui, tendo em vista que alguns dos termos utilizados no post de hoje dizem respeito diretamente ao mesmo. Àqueles que quiserem saber mais sobre o fanatismo religioso como inimigo da ciência sugiro a leitura dos meus textos Sobre o Criacionismo e O Pilar Fundamental do Criacionismo, ambos também deste blog..
Hoje lhes apresento a “Pirâmide da Argumentação” – que felizmente tem se espalhado por toda internet, incluindo o facebook. Trata-se de uma espécie de classificação dos diversos “estágios” de argumentação que podem surgir num debate envolvendo opiniões antagônicas; indo desde a atitude mais grosseira (ofensa pessoal pura e simples, a ponto de se deixar de lado o assunto discutido) até a mais refinada e objetiva (refutação verdadeira ao ponto central do que é apresentado, sem o uso de falácias, por parte de quem conhece o assunto).





O formato de pirâmide é ideal para ilustrar tal situação, uma vez que a argumentação mais pobre costuma ser aquela utilizada pela maioria daqueles que se dispõe a discutir tais assuntos representando a sua base, enquanto o seu ápice representa a refutação verdadeira. Tal conclusão parece óbvia, mas há mais variáveis envolvidas. Antes de mencioná-las, contudo, nos atentemos para duas outras conclusões as quais o leitor certamente também deve ter chegado:
  1. Os indivíduos que fazem uso de falácias não costumam ir além do quinto andar da pirâmide (ela sempre deve ser lida de baixo para cima). A falta de conhecimento, a paixão irracional (no caso dos fanáticos religiosos) e a própria metodologia científica impedem que eles consigam mais do que contra-argumentações baseadas em contradições que muitas vezes sequer existem (“Mas perder estruturas e se tornar mais simples não seria o oposto de evolução?”), o que para os mais desatentos podem dar a ilusão de abalar uma teoria ou afirmação. Aos já familiarizados, contudo, de nada funcionam.
  2. Da mesma maneira, o verdadeiro debate parece confinado aos dois últimos andares da pirâmide (o sexto e o sétimo). De fato, refutar o ponto central ou mesmo trechos de uma teoria científica ou afirmação baseada nelas requer conhecimento e objetividade. Mesmo porque, quem faz ciência sabe: nem sempre isso é possível. E aí chegamos às tais variáveis mencionadas anteriormente.
Apesar de essencial, não é apenas o conhecimento sobre determinado assunto que determina se uma refutação será possível ou não. Dentre outros fatores importantes encontra-se a contingência histórica (vide meu texto Os Moluscos de Leonardo da Vinci). Mas talvez o mais importante seja perguntar-se se aquilo que está em debate (como por exemplo uma teoria científica) PODE ser refutado. Teorias científicas não teem a obrigação de serem a palavra final sobre um assunto e é muito bem vindo que todas elas sejam discutidas (vide meu texto Ciência e Trabalho Cientifico). Mas a verdade é que muitas delas seguem inabaláveis, como a Teoria Geral da Relatividade e a Teoria da Evolução. No caso especial dessa última, tivemos apenas refutações de pontos específicos (“trechos”), mas nunca da sua idéia central (os seres vivos evoluem). E cada nova descoberta da biologia apenas confirma as conclusões de Darwin e Wallace. Ocorre que algumas teorias encontram-se tão bem embasadas que refutar o seu ponto central torna-se praticamente impossível. E então a única saída é tentar elaborar uma teoria nova, capaz de desbancar a que está em voga – e como ocorre em todas as profissões, há cientistas de egos mais inflados disposto a isso.
Obviamente, para os pseudocientistas e fanáticos religiosos é muito mais fácil tentar desacreditar uma teoria científica que criar uma teoria nova que possa substituí-la. Para o azar deles, contudo, a ciência não é mantida pela fé, mas por fatos e evidencias. E fatos só podem ser refutados por meio de outros fatos. E estudar dá trabalho.  


domingo, novembro 20, 2011

COMO COMPREENDER UM BIÓLOGO



É raro, mas vez por outra encontramos textos anônimos interessantíssimos na internet. Hoje decidi compartilhar uma dessas jóias com os meus visitantes. Tudo indica que a mesma só pode te sido redigida por um(a) biólogo(a) apaixonado(a) pelo seu trabalho. Ele não é novo e já rodou praticamente toda a rede, mas fica aqui para os que ainda não o conhecem.
Sendo apenas realista e sem querer puxar a brasa para a nossa sardinha, afirmo sem medo de errar que ser biólogo é muito mais do que uma simples profissão ou fonte de renda – mesmo porque em se tratando de renda na área das ciências biológicas e mesmo da ciência de um modo geral no Brasil a coisa é decepcionante, pra não dizer desesperadora. É um estilo de vida. Um biólogo (ou ao menos um biólogo de verdade) não apenas trabalha com biologia, ele simplesmente vive biologia. Ninguém estuda biologia atrás de dinheiro ou status social (felizmente ou infelizmente, não tem nem como), à semelhança do que ocorre com outras áreas. Quem resolve estudar seriamente biologia tem que, antes de tudo, gostar de biologia. E tem que ter uma coragem que só mesmo o gosto e a afinidade com a coisa são capazes de produzir. Quem não tem afinidade com a área acaba desistindo logo no início. Como me disse um colega certa vez: “Sem desmerecer os outros profissionais, mas certos cursos qualquer mané é capaz de fazer. Agora, para fazer ciência, para fazer biologia, o cara tem que ter culhão.”
Eu, por exemplo, fui um caso raro entre os adolescentes da minha época. Sempre soube a área que queria seguir, o que eu gostaria de estudar. Nunca tive nenhuma dúvida vocacional, ao contrário da imensa maioria dos meus amigos e colegas. Desde criança procurando bichinhos nos matagais e tentando descobrir como eles eram e viviam – sem contar as incontáveis picadas. E sem nenhum medo de brincar com um escorpião ou aranha, coisa que deixava a minha mãe apavorada. Pedindo livros e revistas sobre animais de presente e comprando-as nas livrarias e bancas de jornal sempre que surgia a oportunidade. Vendo beleza em cada detalhe da anatomia e do comportamento de cada espécie, muitas das quais rejeitadas pela maioria das pessoas. Depois vieram as criações de minhoca, os tenébrios, os aquários, terrários mais elaborados, a taxidermia e coisas do gênero. Tudo bem que houve um momento em que minha paixão pelos animais me fez pensar em seguir medicina veterinária. Mas depois que eu descobri que nesta área não estudaria vida pré-histórica e que as espécies silvestres ficariam em segundo plano, tive a certeza definitiva que meu o caminho estava diretamente ligado à biologia.
Li certa vez que o dia do biólogo (3 de setembro) pode ser considerado o dia de todas as espécies. Concordo plenamente. Temos o dia da árvore, da água, da Terra. Faltava um dia dedicado aos seres vivos e não apenas a um único tipo. Além de ser extremamente justo com o profissional que estuda os seres vivos.
De fato, estudar a vida é descobrir algo novo a cada trabalho, a cada dia. E o biólogo que realmente ama o seu trabalho sente nele o mesmo arrebatamento da descoberta que sentíamos quando criança ao observar insetos num jardim. Como escreveu o brilhante Richard Durrell no seu apaixonante livro “O Naturalista Amador”, os apaixonados pela natureza jamais padecerão de um mal que acomete a maior parte da humanidade moderna: o tédio.

Como Compreender um Biólogo
Tenha paciência ao caminhar com ele na rua. É provável que ele faça paradas freqüentes... Sempre há uma formiga carregando uma folha gigantesca nas costas ou uma samambaia disposta de uma forma estranha num buraco do muro.
Ele acha isso incrível!!!
Toda vez que vocês entrarem em qualquer assunto que envolva a área dele, ele se empolgará. Finja que presta atenção no que ele diz. Finja que está entendendo também. Entenda que o conceito de beleza de seu amigo biólogo é um tantinho diferente do seu. Sapos verdes, gosmentos e verruguentos são lindos. Escorpiões, aranhas, opiliões (hein?), aye-ayes (heeeiiinnn???!!!)... são todos lindos.Tente não vomitar quando ele te mostrar as fotos da última necropsia feita num golfinho.
Simplesmente ignore quando o encontrar agachado sobre o musgo... e faça o possível para que ele não te veja, pois uma vez que isso acontecer ele começará o discurso em biologuês: “são briófitas! São as plantas mais simples! Você acredita que elas não têm nem vasos condutores? E elas ainda dependem da água para a fecundação e...”
É provável que ele prefira ir para o congresso de Mastozoologia ao invés daquela viagem romântica. Você quer ajudá-lo? Mostre que há outras coisas no mundo, por exemplo... convide-o para ir a um museu de arte. Ou a um grupo de discussão sobre literatura.
Ele terá tendência a chamar pinheiros de gimnospermas. E a pinha (de onde
vem o pinhão) de estróbilo.
Não, ele não é um maníaco suicida se decidir entrar numa jaula para mergulhar com tubarões-brancos. Mas também não deve estar em seu juízo perfeito.
Ah, e é melhor você assistir filmes como Dinossauros, A Era do Gelo e Procurando Nemo com amigos que não sejam biólogos. Caso contrário você ouvirá, durante o filme: “ah, mas baleias não têm essa conexão entre a boca e o nariz, o Marlin e a Dori nunca poderiam ter saído pelas narinas dela!” E quem se importa? Bem, ELE se importa, e muito.



segunda-feira, outubro 24, 2011

III ENCONTRO DE COSMOS NO YOUTUBE

O amigo Renato A. Azevedo adicionou no seu perfil do Youtube videos com trechos de todas as palestras ministradas no III Encontro de Cosmos, ocorrido no dia 08 de outubro de 2011. Estão incluidos dois videos da minha palestra "Evolução e Extinção".
Segue o endereço:
http://www.youtube.com/watch?v=YkV-bn-q0Mo&feature=bf_prev&list=ULqrnMsCAaxvU&lf=mfu_in_order

Só agora notei que cometi um erro grosseiro na minha apresentação. O mesmo pode ser conferido no primeiro video video, onde menciono "efeitos especiais que existiam hoje". Se existiam, então não existem mais hoje, ora bolas. Minhas sinceras desculpas, amigos leitores.
Agradeço mais uma vez aos amigos do site Aumanack pela oportunidade, ao amigo Renato pela filmagem, aos presentes pelo prestigio e a todos aqueles que quiseram mas não puderam estar fisicamente presentes pelo apoio.

terça-feira, setembro 27, 2011

III ENCONTRO COSMOS: TERRA E ESPAÇO

Nascia há 31 anos uma das séries televisivas de maior sucesso mundial: Cosmos.

Criada por Carl Sagan e sua esposa Ann Druyan, ela foi veiculada pela primeira vez em 1980 nos EUA, chegando dois anos depois ao Brasil.
O grande sucesso da série não era a ficção cientifica com suas naves espaciais ou seres alienígenas. Era o contrário. Carl Sagan conseguiu manter pessoas no mundo inteiro assistindo aos episódios de uma série que falava sobre Ciências.
Em seus episódios, pudemos conhecer um pouco mais sobre outros planetas e as estrelas, mas também sobre a vida na Terra e problemas ecológicos, em uma época que poucas pessoas falavam sobre isso.
Cosmos antecipou problemas como o efeito estufa, aquecimento global, falta de água e tantos outros que vivemos atualmente.
Carl Sagan foi um homem sempre a frente de seu tempo, uma ser humano sem medo de errar e que ensinou a gerações a ter amor pela Ciência e acima de tudo, pela própria raça humana.


Serviço:

Data: 08 de outubro de 2011
Horário: 9h00 as 18h00
Local: Auditório da Estação Ciência
Endereço: Rua Guaicurus, 1394 - Lapa - São Paulo  (Ao lado da Estação Lapa da CPTM e do Terminal de ônibus, em frente ao Shopping Center Lapa)
Entrada: O evento Cosmos é gratuito. Será cobrado o valor da própria Estação Ciência, R$ 4,00 (veja valor atualizado no site da Estação). Estudantes e portadores de necessidades especiais - meia entrada. Isentos: Professores (com comprovação); monitor, agente ou guia de turismo (com registro Embratur); comunidade USP (com carteirinha válida na catraca); menores de 6 anos e maiores de 60 anos.
Evento sem fins lucrativos. Pedimos aos visitantes que levem 1 kg de alimento não perecível.


Programação*

- 9h00 – Abertura do evento
- 9h05 – Episódio 10: “O Limiar da Eternidade” série Cosmos - legendado
- 10h00 – Palestra: “Extraterrestres: Ficção, Ciência e Polêmica”. Palestrante: Renato Azevedo – site Aumanack
- 11h00 – Palestra “Presente de um mundo distante”. Palestrante: Douglas Camillo-Reis  Grupo de Ficção Científica Alpha
- 12h00 – Episódio 9:  “A Vida das Estrelas” série Cosmos - legendado
 - 13h00 – Palestra "Evolução e Extinção" Palestrante: Átila Oliveira
- 14h10 – Palestra “Buracos negros – vilões do universo?” Palestrante Sílvia Reis – Grupo de Ficção Científica Alpha
 -15h20 – Palestra “Os ônibus espaciais e a conquista do espaço - O Fim de uma Era” Palestrante Denis Zoqbi – Clube de Astronomia de São Paulo
- 16h30 – Palestra  “A verdade sobre um ponto de vista: As mudanças e os modos como às pessoas interpretam a ciência".  Palestrante Alan Uemura - site Aumanack
- 17h45 – Sorteio
- 18h00 – Encerramento

*programação sujeita a alterações


Sinopses:

O Limiar da Eternidade: Neste episódio Carl Sagan apresenta diferentes teorias acerca da origem e destino do Universo, desde lendas e crenças à astrofísica. Para tanto, Sagan apresenta noções básicas de físicas, explicando a questão das 3 dimensões e a possível quarta dimensão (tentando exibir o que seria um Tesseract), bem como o efeito Doppler e sua repercussão para o teoria do universo em expansão, descoberto através das observações esmeradas de Milton L. Humason e Edwin Hubble.  Ao tratar do big bang, faz uma regressão às explicações cosmológicas do hinduísmo, especialmente a "dança cósmica" do deus Shiva, numa escultura do Império Chola.

Extraterrestres: Ficção, Ciência, e Polêmica: Ao longo de mais de um século, os extraterrestres têm capturado a imaginação  da humanidade. Desde a publicação de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, as pessoas fazem à pergunta: eles existem?  Na ficção, produções literárias, televisivas e cinematográficas têm explorado a exaustão as mais variadas facetas da vida extraterrestre.  As descobertas científicas parecem indicar que é questão de tempo a comprovação da existência de vida fora da Terra. Mesmo assim, as polêmicas ainda existem, a exemplo das recentes declarações do astrofísico Stephen Hawking, alertando que a chegada de alienígenas à Terra podem ameaçar nossa espécie. Nesta palestra, será traçado um panorama a respeito das múltiplas formas com que enxergamos aqueles que Carl Sagan descreveu como "nossos irmãos e irmãs no Cosmos". 
Renato Azevedo é engenheiro eletrônico e escritor. Autor de "De Roswell a Varginha" (2008). Consultor da revista UFO e colaborador da revista Sci-Fi News, coluna Quem conta um conto..., publicando a série de  contos A Lista. Co-editor do site Aumanack. Autor convidado nas antologias  Ufo: Contos Não Identificados (2010), e Medieval Scifi (2010). Participante das antologias Histórias Fantásticas Volume 1 (2010), Imaginários 4 (2011), e A Fantástica Literatura Queer (2011). Escreve o blog Escritor com R (http://escritorcomr.blog.uol.com.br).

Presente de Um Mundo Distante: "Como a Humanidade se apresentará perante a Galáxia. Em havendo alguém mais na vastidão do oceano cósmico para compararmos notas, descobertas, alegrias e arrependimentos, de que modo os seres que surgiram e cresceram no pálido ponto azul que chamamos de Terra se expressarão sobre sua existência e suas intenções futuras? Os cientistas da NASA, entre eles o renomado Carl Sagan, buscaram responder a esta indagação, e produziram um dos mais belos trabalhos unindo arte e ciência.", como o Disco de Ouro da Nave Voyager e a Placa da nave Pioneer desenhada pelo próprio Carl Sagan.
Douglas Camillo-Reis é escritor de ficção científica e roteirista do Grupo de Teatro Zona Neutra, a divisão de teatro do Grupo de Ficção Científica Alpha.

A Vida das Estrelas:  Neste episódio, Carl Sagan parte do simples ato de fazer uma torta de maçã para falar de átomos e partículas subatômicas.  Muitos dos ingredientes necessários são compostos de elementos químicos, formados durante a vida e morte das estrelas, resultando em gigantes vermelhas e supernovas, que colapsam em anãs brancas, estrelas de nêutrons, pulsares e buracos negros, e produzem vários tipos de fenômenos.

Evolução e Extinção: O universo é extremamente dinâmico e nada nele é eterno. Mesmo as estrelas nascem e morrem. O próprio cosmo teve um início. Não poderia ser diferente com a vida no planeta Terra. Os seres vivos que o habitam nem sempre foram iguais ao que são hoje. Isso se deve em parte ao fato da história da Terra apresentar cinco episódios de extinção em massa, onde a vida literalmente quase acabou. E ela encontrou maneiras de repovoar-se após todos os cinco, por meio da evolução e diversificação dos tipos sobreviventes. Portanto, não seria errado afirmar que as extinções ajudaram (e ajudam) a moldar a evolução da vida em nosso planeta. Contudo, muitos especialistas hoje reconhecem que estamos passando por um sexto episódio de extinção em massa, que não deixa nada a dever a nenhum dos anteriores, e com um grande diferencial: dessa vez a mão humana parece ter sido um agente fundamental.
Átila Oliveira é biólogo e educador. Autor do blog Pegadas de Um Dinossauro do Século XXI (atilassauro.blogspot.com) sobre zoologia, paleontologia e evolução biológica, combatendo o  criacionismo e outras formas de pseudociência. Colaborador do site Aumanack e Biomania.

Buracos Negros – Vilões do Universo?  Buracos negros são um dos objetos mais misteriosos do universo, exercendo fascínio e por vezes temor. Hoje a ciência estima que toda galáxia tenha um em seu centro. Mas como surgem e qual seu papel na evolução do Universo? Qual seu raio de ação?  Seria possível viajar no tempo através deles, ou criar um microburaco negro em laboratório? Serão abordadas essas e outras questões como a diferença entre buracos negros, buracos brancos e buracos de minhoca, bem como a confiabilidade das informações científicas a que temos acesso.
Sílvia Reis é astrônoma amadora, pedagoga, psicopedagoga e autora de 10 livros na área da educação. Fez a assessoria pedagógica e a co-roteirização da sessão “Uma aventura pelo Sistema Solar” do Planetário Municipal de São Paulo.  É integrante do Grupo de Observações Avançadas do Clube de Astronomia de São Paulo, onde é coordenadora.  Presidente do Grupo de Ficção Científica Alpha e Grupo de Teatro Zona Neutra: http://alphafiction.wordpress.com/   e  www.grupozonaneutra.com

Os ônibus espaciais e a conquista do espaço - O Fim de uma Era: Graças ao domínio das tecnologias dos vôos tripulados, a conquista do espaço deu um enorme salto em busca de requinte e sofisticação. Novas plataformas de trabalho como a Estação Espacial Internacional, novos equipamentos e até telescópios espaciais só puderam ser colocados em órbita graças aos vôos dos ônibus espaciais. Veículos que trouxeram luz à ciência,  e tragédias que ensinaram o homem a repensar sua história.
Denis Zoqbi é radioastrônomo amador e instrutor de Astronomia junto ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia - INCT e atualmente coordena os cursos de Iniciação em Astronomia do CASP - Clube de Astronomia de São Paulo.

A Verdade Sobre um Ponto de Vista: As mudanças e o modo como as pessoas interpretam a ciência: Durante os séculos a ciência evoluiu. De um mundo cheio de monstros aos monstros tecnológicos. O que ontem era visto como "verdade", hoje foi derrubado e damos risada de nossa ingenuidade. A ciência e o mundo são desta forma, um "ponto de vista" do nosso conhecimento e cultura em que vivemos. Nesta palestra, queremos mostrar como algumas descobertas cientificas muitas vezes dependem apenas de um ponto de vista.
Alan Uemura é jornalista, editor dos sites Aumanack (www.aumanack.com) e Nippak Online (www.nippak.com.br)

Organização: Site Aumanack e Grupo de Ficção Científica Alpha
Apoio: Estação Ciência

Mais informações: http://www.eciencia.usp.br/



ANIVERSÁRIO DO BLOG

Há pouco mais de uma semana (dia 18 de setembro) este blog completou um ano no seu novo endereço. Ainda que a correria dos últimos meses (provocada, felizmente, por motivos muito bons) tenha me impedido de postar com a freqüência que gostaria (e que havia prometido), fico feliz em notar que o meu principal objetivo fora alcançado: um blog focado, regular, esclarecedor dentro das limitações do seu autor e, especialmente, muito bem frequentado, com comentários pertinentes de gente realmente interessada no assunto.
Fazendo uso de um típico clichê dessas situações, aproveito para mostrar os 10 posts mais visitados do blog nesses 365 dias (clique na imagem para ampliá-la e visualizá-la melhor):



Como os leitores podem notar, os dinossauros encabeçam a lista, sendo assunto dos três posts mais lidos – com o célebre T. rex protagonizando o primeiríssimo lugar (PREDADOR OU CARNICEIRO?), com 1.270 visitas até o momento. Nada mais gratificante para um espaço voltado principalmente para a paleontologia e evolução biológica. Contudo, o quarto (BELAS, SIM... MAS ANTES DISSO, CRAQUES) e sétimo (PARA QUEM GOSTA DE MULHER) lugares comprovam que mulher bonita é sempre assunto com visita garantida. E falando em mulher, minhas considerações sobre a proposta da Slut Walk SP (NÃO, MULHER NÃO É TUDO VACA), além de ocupar o sexto lugar, teve ótima repercussão (14 comentários) só perdendo neste quesito para 10 INDICIOS DE QUE VOCÊ É UM PSEUDONERD (com 16 comentários e muita gente irritada por vestir a carapuça). Grande repercussão também teve HOMOSSEXUALIDADE ANIMAL (oitavo mais visitado), com 13comentários e muitos homofóbicos tendo que encarar a fragilidade do seu principal argumento: o de que homossexualidade seria algo contra a natureza e portanto uma aberração.
Agradeço a todos os visitantes e divulgadores do blog (grandes amigos, amigos virtuais e ilustres desconhecidos) pelo alcance que alguns dos meus textos tiveram, graças as suas indicações e repassadas. Sem vocês esse espaço seria apenas algo pessoal e restrito. Nada contra quem prefere fazer um blog nesse estilo, mas a minha proposta é outra. Esclarecendo, informando e, principalmente, fazendo pensar, sinto que estou no caminho certo. E, lembrando, sempre aberto a críticas e sugestões.
Para os próximos dias, aguardem posts instigantes. Abraço pra quem for de abraço, beijo pra quem for de beijo.

segunda-feira, julho 18, 2011

10 BOAS NOTÍCIAS DOS ÚLTIMOS 45 DIAS

  • Norte americano compõe rap em homenagem a Charles Darwin. A cultura geral ajudando a popularizar a ciência.
  • Neurocientistas da Universidade de Michigan confirmam o que todos os amantes da natureza já sabiam há tempos: o contato com elementos naturais, mesmo uma pequena área arborizada de uma grande metrópole ou um animal de estimação, reduz o estresse, a ansiedade, a tristeza, o cansaço e a possibilidade de depressão, além de aumentar a capacidade do indivíduo para solucionar problemas.
  • Grupo de pesquisadores da Universidade Rockefeller, liderado pelo brasileiro Michel Nussenzweig, descobre uma origem comum para mais de 570 tipos de anticorpos que atacam o HIV, o que aumenta as chances de uma possível terapia gênica para a AIDS. A pesquisa está na revista Science.
  • A coluna “Escuta Aqui”, de Álvaro Pereira Junior, no suplemento Folhateen do jornal Folha de São Paulo foi extinta.
  • Ainda sobre a Folha, após duas décadas ininterruptas de balelas e caras de pau, José Sarney não figura mais entre seus colunistas.
  • Racistas de todas as cores, hora de chorar. Estudos sobre o DNA e a demografia dos hominídeos realizados nos últimos trinta anos confirmam que o homem moderno não apenas surgiu na África, como originou-se de várias miscigenações e, consequentemente, de hibridizações culturais.
  • Ministério Público estuda a possibilidade de ação contra o “humorista” Rafinha Bastos, em virtude de sua infeliz piada envolvendo estupro e mulheres feias.
  • Melanossomos (estruturas microscópicas que constituem a base do pigmento melanina) presentes em tecidos moles (pele, penas, escamas, pelos) bem preservados pode ser a chave para a reconstituição correta das cores de espécies animais pré-históricas.
  • A banda Red Hot Chili Peppers fará uma apresentação em São Paulo no dia 21 de setembro – ou seja, antes do Rock in Rio. O local será a Arena Anhembi. Ingressos à venda.
  • Marianne Steinbrecher, a Mari, está confirmada como titular da seleção brasileira feminina de vólei no próximo Grand Prix, que tem início no dia 5 de agosto.


sábado, junho 25, 2011

HOMOSSEXUALIDADE ANIMAL

Já há algum tempo venho preparando um texto sobre a homossexualidade no reino animal. Sim, ao contrário do que os mais desinformados pensam ela não é exclusividade da espécie humana. E o lançamento de A Fantástica Literatura Queer (brilhantemente idealizada e organizada por Rober Pinheiro e minha amiga Cristina Lasaitis), bem como a proximidade da Parada do Orgulho LGBT, me mostrou que nesse ano não haveria momento mais oportuno para postá-lo que agora.
Para desespero dos homofóbicos de plantão, a ciência tem descoberto um número cada vez maior de evidências da homossexualidade em outras espécies animais, além do Homo sapiens. Isso por si só já bastaria para derrubar de uma vez por todas o principal argumento daqueles que procuram justificar a homofobia, principalmente certos segmentos religiosos: a de que a homossexualidade seria "algo contra a natureza". Aliás, tal afirmação constitui justificativa das mais pobres e frágeis; uma vez que feitos como a agricultura, a prevenção de doenças, a correção de defeitos congênitos e a própria fabricação de medicamentos também são atitudes não naturais da espécie humana. O comportamento homofóbico, como toda intolerância baseada no puro preconceito, relaciona-se com uma desesperada procura de uma justificativa para o ódio injustificável. De fato, é muito mais fácil atribuir a origem de preconceitos a entes externos como Deus ou um livro sagrado que assumi-los publicamente. Se reconhecer e se assumir como um indivíduo preconceituoso requer muita coragem.
Apenas no início do século XX alguns pesquisadores pararam de fazer vista grossa para algo que julgavam imoral -
sim, sempre houve e ainda há preconceito na ciência, pois cientistas são antes de tudo seres humanos. Em 1999, o zoólogo canadense Bruce Bagemihl listou 1500 espécies de animais onde existe algum comportamento que caracteriza envolvimento sexual e/ou afetivo entre indivíduos do mesmo sexo; sendo em sua maioria (mas não apenas), mamíferos e aves. A lista é enorme: leões, golfinhos, elefantes, rinocerontes, lobos (e sua subespécie bem conhecida de todos nós, o cão doméstico), ratos, quase todas as espécies de pássaros e praticamente todos os primatas, só pra citar alguns exemplos.
Mas é preciso cautela. Tais descobertas de forma alguma evidenciam a existência de uma possível origem genética para a homossexualidade na espécie humana, como querem alguns. Na natureza a sexualidade é extremamente diversificada e em algumas espécies o comportamento homossexual se apresenta de forma bem diferente do que se observa na nossa espécie. Com base no que já se descobriu, inclusive do ponto de vista evolutivo, chega a ser ingênuo querer estabelecer uma teoria de origem comum para a homossexualidade em todo o reino animal, ou mesmo para todos os mamíferos. Tudo indica que ela apareceu mais de uma vez, de maneiras diferentes e independentes na história da sexualidade das espécies. Ou seja, não foi um acontecimento único e isolado, evoluído linearmente, mas sim vários eventos pontuais, extremamente abrangentes e multifacetados (como a própria sexualidade em si, diga-se de passagem). Sem sombra de dúvida, um tema complexo. Trabalhos multidisciplinares parece ser o caminho para compreender a homossexualidade humana e dos outros animais. Eis um campo de estudo interessante e promissor, onde muitas pistas ainda estão esperando para serem descobertas.
A seguir, apresento dez espécies onde a homossexualidade se manifesta de maneiras bem particulares:



 Bonobo (Pan paniscus) - Ao contrário dos seus parentes próximos, os chimpanzés (Pan troglodytes), os bonobos são extremamente pacíficos e pouco territorialistas; muito raramente fazendo uso de agressões físicas, seja entre membros da mesma espécie, seja com outros animais. Além disso, não apresentam o que se poderia chamar de uma hierarquia social. Mas o mais curioso são suas interações sociais: que não são estabelecidas por meio da intimidação ou da violência, como nos chimpanzés, mas sim sob formas bem mais gentis, não raras vezes fazendo uso do contato sexual. Poligâmicos, os bonobos possuem uma sexualidade extremamente variada: heterossexuais, machos com machos, fêmeas com fêmeas (caso da foto acima, o maior número de contados homossexuais registrados na espécie), machos adolescentes montando fêmeas maduras, machos adultos montando fêmeas adolescentes, fêmeas maduras masturbando jovens machos, fêmeas velhas abaixando-se delicadamente quase ao nível do chão para permitirem-se penetradas por filhotes machos. Alguns pesquisadores chegaram a afirmar que não existem bonobos fêmeas heterossexuais, mas apenas bissexuais (que seriam a maioria) ou homossexuais. Essa também é uma das diversas espécies de primatas onde se observou relações homossexuais que culminaram em algo muito semelhante ao orgasmo humano. O bonobo foi a primeira espécie, além do homem, onde se notou que o sexo não se limitava ao propósito da reprodução, incluindo sexo oral tanto nas relações hetero quanto homossexuais. O sexo nessa espécie parece ter uma importância tão ou maior que na espécie humana, uma vez que além do prazer, envolve todo um contexto social.



 "Blackbuck” (Antilopa cervicapra) - Esse ruminante asiático muda a sexualidade conforme a idade. Até o presente momento, machos adultos homossexuais são desconhecidos. Mas curiosamente, e por motivo ainda ignorado, todos os machos adolescentes (que possuem a mesma tonalidade castanha das fêmeas) são exclusivamente homossexuais, copulando entre si. Só começam a procurar fêmeas após atingirem a maturidade e adquirirem a característica coloração negra com o ventre branco dos machos adultos, que são solitários a maior parte do ano, formando haréns na época do acasalamento – como na foto acima.




Cisne Trombeteiro (Cygnus buccinator) – O maior pássaro da América do Norte, essa espécie foi equivocadamente eleita como símbolo do amor entre um homem e uma mulher, bem como da fidelidade amorosa. De fato, até algumas igrejas (incluindo a católica romana) chegaram a citar por mais de uma vez o cisne em defesa do casamento tradicional e para condenar o adultério. A grande verdade porém é que o cisne trombeteiro, bem como todas as outras espécies de cisne, não é nenhuma das duas coisas. Estudos em genética nas duas últimas décadas mostraram que, embora essencialmente monogâmicos, muitas vezes as ninhadas de cisnes têm pais biológicos diferentes do parceiro com o qual a fêmea divide os cuidados do ninho. E para sepultar de uma vez a fama desses animais como marido/esposa fiéis, geralmente esses pais biológicos são machos “comprometidos” com outras fêmeas. Também já se observou diversos contatos homossexuais em indivíduos de ambos os sexos nessas “puladas de cerca”, ainda que as mesmas sejam bem mais comuns nos indivíduos jovens, que não realizaram sua primeira postura. Cabe aqui adicionar que em virtualmente todas as espécies de pássaros ocorrem contatos homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em ejaculação.



Hiena Malhada (Crocuta crocuta) - Uma das características da família dos hienídeos é a presença nas fêmeas (geralmente pouco maiores que os machos) de uma bolsa escrotal oca. E o clitóris delas é enorme e alongado, muito semelhante a um pênis. Além disso, fora da época da reprodução, sua abertura vaginal permanece fechada e impenetrável. Devido a essas características bem peculiares, até meados do século XIX pensava-se que as hienas (família Hienidae) fossem hermafroditas – outra característica vista como demoníaca por alguns segmentos religiosos judaico-cristãos. Realmente, em muitos casos, só é possível distinguir o sexo de uma hiena apalpando-lhe a bolsa escrotal. Os bandos de hienas malhadas são sociedades matriarcais, lideradas por uma fêmea dominante. Há décadas registra-se um número expressivo de falsas cópulas entre fêmeas adultas e mesmo jovens. Todo ano, grupos de 2 a 4 fêmeas (muitas vezes com filhotes) se separam do resto bando e assim ficam, por períodos que variam de meses até o resto da vida, compartilhando comida e executando falsas cópulas com relativa frequência.



 Urso Pardo (Ursos arctus) – Mais precisamente, as ursas pardas. Há uma farta documentação a respeito de fêmeas nessa espécie que poderiam ser classificadas, segundo critérios humanos extremamente restritivos, como bissexuais. Ocorre que os ursos pardos (o maior predador terrestre do Hemisfério Norte) são animais solitários, sendo que os machos procuram as fêmeas apenas na época do acasalamento. O casal nem chega a conviver junto por muito tempo, ficando a fêmea como a única responsável pela criação dos filhotes – que por sinal têm os machos adultos da própria espécie como seus principais predadores. Não são raros os casos de duas fêmeas que pariram na mesma época acabarem se unindo para cuidarem juntas das suas ninhadas. O que poderia ser apenas uma “parceria de amigas com necessidades em comum” revela-se algo mais se atentarmos para o fato que em 90% desses casos elas trocam carícias e até executam falsa cópulas com contatos vaginais, não raras vezes resultando em orgasmos.




Borboletas Nynphalídeas (diversas espécies) – Essa família de borboletas inclui várias das espécies possuidoras de grandes ocelos nas asas (desenhos que lembram olhos, cujas funções vão de afugentar predadores a chamarem a atenção das fêmeas), geralmente mais desenvolvidas nos machos. Em 2010, Antonia Monteiro e Kathleen L. Prudic da Universidade de Yale realizaram um interessante estudo sobre a sexualidade desse tipo de borboleta, no qual há uma documentação expressiva sobre homossexualidade, especialmente entre fêmeas. O referido estudo foi posteriormente publicado na revista Science. As autoras estudaram o comportamento sexual de borboletas criadas a 27ºC e a 17ºC. Notou-se que nas temperaturas mais frias, as lagartas fêmeas davam origem a adultas que adotavam um comportamento mais ativo no que diz respeito à reprodução, literalmente cortejando os machos. Em algumas espécies, até os ocelos das asas, tornaram-se maiores e mais vivos. Já as lagartas de temperaturas mais elevadas originam fêmeas mais passivas, que apenas esperam o cortejo dos machos. O resultado é que as fêmeas mais ativas acabam sendo aquelas com maior sucesso reprodutivo. Além disso, é justamente nelas que se observa interações homossexuais. A grande questão é: será que as duas características possuem alguma ligação?



Argali ou Bighorn (Ovis ammon) – Esse majestoso carneiro selvagem vive numa região montanhosa que vai do Oriente Médio a Mongólia, passando pelo Himalaia. Os machos são geralmente solitários quase o ano todo, formando grandes haréns na época do acasalamento. As fêmeas vivem em pequenos grupos. Como ocorre geralmente nas espécies poligâmicas, o dimorfismo sexual é bem acentuado, sendo os machos bem maiores e com grandes cornos curvados em forma de meia lua, que usam em disputas territoriais ou por fêmeas – dos quais os maiores pares chegam a pesar 200 kg. Nessa espécie, alguns machos adultos ou jovens podem formar pequenos grupos (como o da foto acima), onde são bastante comuns contatos sexuais, incluindo lambidas na região genital resultando em ejaculações. Alguns desses indivíduos passam a vida inteira nesses grupos, nunca procurando fêmeas.



Babuíno Dourado (Papio cinocephalus) – Nessa espécie registraram-se diversos contados homossexuais em ambos os sexos. E assim como nos bonobos (vide acima), já se observou não apenas o autêntico orgasmo, como também que a vocalização das fêmeas no momento da cópula é um indicativo claro de prazer – fêmeas que fazem sexo às escondidas (como as que “traem” o grande macho dominante com outros machos do bando) costumam manter o silencio durante o ato. Hoje já se sabe que essa é uma característica comum a todos os primatas e não exclusiva da espécie humana. Embora bem mais agressivos e combativos que os bonobos, os babuínos também possuem um comportamento sexual com contexto social: a montada. Entre os babuínos há o hábito de ser virar o traseiro para os indivíduos dominantes, em sinal de submissão. E é comum entre os machos adultos a penetração anal, montando outro macho hierarquicamente inferior. Como resultado, o líder monta todos os indivíduos adultos do bando. Embora mais raros há líderes, apelidados por alguns primatólogos de "machos Nero", que também se permitem montar por outros machos hierarquicamente graduados.



Baleia Cinzenta (Eschrichtius robustus) - Na época da reprodução, grupos de machos dessa espécie de cetáceo avançam nos mares árticos em busca das fêmeas. Na verdade, nem todos. Durante o trajeto alguns machos esfregam seus corpos em outros machos, quase sempre tendo ereções. Essa troca de carícias geralmente culmina com dois ou três machos cercando um terceiro, tentando copular com este (normalmente sem sucesso) e finalizando com ejaculações. Observou-se que a maioria destes machos que participam desta brincadeira sexual não procuram fêmeas para se acasalarem.



Mosca das Frutas (Drosophila melanogaster) - Num estudo realizado em 2005, a equipe liderada pelo neurobiologista australiano Barry Dickson, do Instituto de Biotecnologia Molecular da Academia Austríaca de Ciências, em Viena; conseguiu alterar o comportamento sexual dessa espécie (uma das mais utilizadas em experimentos científicos) apenas mexendo no seu código genético. Para isso alteraram o gene conhecido como "fruitless" ou "fru", considerado a central para o acasalamento, envolvida no ritual de corte dos machos. Notou-se então que as fêmeas alteradas começaram a procurar outras fêmeas e até a tentar copular com elas; enquanto os machos alterados passaram a se comportar como fêmeas em relação aos outros machos. Esse experimento esquentou ainda mais o debate sobre uma possível origem genética da homossexualidade. Contudo, cabe esclarecer que nos vertebrados, ao contrário do que ocorre nos insetos, não são os cromossomos que determinam a sexualidade. Na verdade ela estaria muito mais relacionada com os hormônios. Ainda assim, muitos estudiosos defendem que essa influencia seria apenas parcial – prova disso é que lésbicas não apresentam necessariamente altos níveis de testosterona, por exemplo.



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