segunda-feira, abril 11, 2011

O PILAR FUNDAMENTAL DO CRIACIONISMO


Num post publicado em novembro do ano passado (Sobre o Criacionismo) procurei definir o criacionismo e apontar as suas principais características junto ao leitor não especializado, bem como apresentar as formas de desonestidade intelectual, empregadas por alguns dos seus adeptos, com o intuito de fazer parecer que esse embuste tenha algum fundamento. Também me senti na obrigação de esclarecer no mesmo texto que é perfeitamente possível ter uma fé e aceitar a evolução dos seres vivos, desde que a mesma não exclua esse fato. Fé é ciência não precisam ser inimigas, ao contrário do que pregam fanáticos de ambos os lados. Hoje, venho abordar aquilo que não apenas move como também sustenta todo o pensamento criacionista. Por que existem pessoas que se recusam com tamanha veemência a aceitar o fato mais que comprovado da evolução biológica? Em que se fundamenta a doutrina criacionista? Na fé? De certa forma, sim. Mas trata-se, contudo, de um tipo bem específico de fé. Quando se aborda esse tipo de assunto deve-se evitar ao máximo o caminho perigoso das generalizações e rótulos. Podemos iniciar pela leitura do trecho que se segue:

"Isso é totalmente contrário ao que ensina a Bíblia. Sabemos que somos a excelência da criação, que fomos criados um pouco menores que os anjos, que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus. Mas a evolução nos ensina que somos apenas mais uma espécie na natureza. Não posso acreditar na evolução e me considerar um primo, ainda que distante, das baratas."

A afirmação acima faz parte de uma “apostila” que chegou às minhas mãos em 2004, onde o biólogo criacionista (sim, eles existem, por mais contraditório que isso seja) Marcos David Muhlpointner tenta refutar as bases da teoria da evolução biológica. Cheguei a comentar o conteúdo da mesma no antigo endereço deste blog, algo que hoje consideraria desnecessário. Independente de tal episódio é importante notar que a passagem destacada ilustra de maneira bem clara e direta a força motriz do criacionismo. O que motiva um criacionista a manter sua fé nada mais é do que a necessidade de se sentir como uma criatura especial e superior a todas as demais. A espécie favorita do Criador. Numa cultura onde essa visão de mundo predomina, qualquer oposição supostamente embasada à idéia do ser humano como apenas mais um animal cai como uma luva, servindo como porto seguro, ainda que totalmente ilusório, a quem compartilha dela.
Cabe esclarecer que, embora tal forma de fé seja uma característica fundamental de certas religiões pentecostais e neopentecostais, outras formas de monoteísmo não a levam tão ao pé da letra. Na verdade, a maioria das religiões do tronco judaico-cristão aceita a evolução biológica sem problemas. Mas o criacionismo soube muito bem potencializar o conceito e expandir as fronteiras dessa crença na superioridade humana, baseando-se em parte no fato da Reforma Protestante defender (e pregar desde então) uma interpretação literal e não metafórica dos textos sagrados – prometo abordar essa questão num post futuro. Chega a ser engraçado perceber como essa suposta literalidade acabou criando toda uma nova horda de símbolos e metáforas, cujos detalhes este biólogo, reconhecendo seus limites, prefere deixar a cargo dos estudiosos da semiótica e áreas correlatas.
A verdade é que, via de regra, criacionistas claramente enxergam na teoria da evolução biológica, antes de qualquer coisa e não raras vezes de maneira inconsciente, uma ofensa pessoal. Por ser uma teoria científica e justamente por isso mostrar as coisas como elas realmente são (nesse caso o ser humano como apenas mais uma espécie na natureza), independente disso ser agradável ou não, ela vai de encontro à idéia propagada por alguns líderes religiosos de que a humanidade seria a obra favorita de Deus. Para um criacionista, ser considerado um animal ou mesmo comparado com os outros animais é a maior das afrontas. A coisa se torna ainda pior quando esses animais são do tipo que pouca gente vê alguma beleza, como as baratas e, especialmente, os grandes símios (bonobos, chimpanzés, gorilas e orangotangos). Preferem ver a si mesmos como especiais e separados da natureza, sobre a qual teriam plenos poderes concedidos por sua divindade. Isso já explica quase que por completo a resistência em aceitar a evolução biológica por parte desses indivíduos: orgulho e soberba infantis, levados às últimas conseqüências. São como aquelas crianças mimadas e inseguras, que precisam se sentir o(a) filho(a) ou aluno(a) preferido(a) para serem felizes. Afirmações famosas da retórica criacionista como “eu não vim do macaco” ou “o ser humano não é apenas um chimpanzé evoluído” refletem tanto esse egocentrismo quanto o desconhecimento dos fundamentos mais básicos da biologia – lembrando que falta de conhecimento é algo sempre conveniente quando o objetivo é a manipulação. Ao mesmo tempo, é importante lembrar que faz parte do comportamento criacionista acusar os cientistas de arrogância. Trata-se da projeção psicológica mais uma vez se revelando como uma ferramenta recorrente.
O fato é que, gostando ou não, somos primatas (e como tais, descendemos de outros primatas), como primatas somos mamíferos, como mamíferos somos vertebrados, e como vertebrados somos animais – os conhecedores de taxonomia notarão que exclui propositalmente vários grupos nessa escala lineana simplificada; o objetivo aqui é poupar os leitores não familiarizados com o assunto de um incômodo desnecessário. Temos 98% de semelhança genética com os chimpanzés (Pan troglodytes), doa a quem doer. Nenhuma pregação enfurecida mudará esse fato. E mais: a ciência já provou que não somos a única espécie animal dotada de características como consciência, emoções e raciocínio. E nem me refiro especificamente aos símios nesse caso. Qualquer graduando que já teve a oportunidade de realizar um experimento comportamental utilizando ratos sabe muito bem o que quero dizer. O número de semelhanças da nossa espécie com as outras é muito maior do que as diferenças, para desespero dos defensores do “um pouco menores que os anjos” (esses por si só uma grande projeção antropocêntrica). E esse número aumenta em progressão geométrica quando se aproxima o parentesco: temos mais em comum com um cão que com uma jibóia e, por sua vez, muito mais em comum com um macaco prego que com os cães.
A maior semelhança entre alguns tipos de seres vivos em comparação com outros constitui evidencia óbvia da evolução. Se, como os criacionistas defendem, ela não existisse, todas as espécies teriam o mesmo grau de semelhança: todos muito parecidos ou todos muito diferentes entre si. A variabilidade (e aqui incluo obviamente a variabilidade genética) é uma prova cabal da evolução. Sem evolução parentescos não existiriam – ou todas as espécies teriam o mesmo grau de parentesco, dependendo da abordagem. Só não vê quem não quer. E sabemos quanto o fanatismo é capaz de cegar.
Uma das maiores “pérolas” criacionistas atribui à fala uma prova clara da superioridade humana. Gostam de repetir feito mainás histéricos (trocadilho proposital) que nenhum outro primata se tornou capaz de conseguir o mesmo, o que evidenciaria o fato do Homo sapiens ser uma criatura especial. Afirmam ainda que tal característica seria uma evidência da imensa superioridade e divina complexidade do cérebro humano. Entretanto, biólogos sabem que gorilas e chimpanzés são incapazes de falar não por uma suposta inferioridade cerebral (cabe aqui frisar que neurocientistas comparam o cérebro desses símios com os de crianças de 2-3 anos, ou seja, idade onde em geral a linguagem falada já se encontra plenamente desenvolvida), mas sim pelo seu aparelho vocal, que é bem mais limitado que o nosso. E lembrando que não foram poucos os chimpanzés e gorilas que, devidamente estimulados e condicionados, aprenderam a se comunicar com seres humanos de maneira não falada, incluindo linguagem de sinais. Indo mais longe: a complexidade anatômica do cérebro humano (ainda que não seja confiável utilizar tal característica isolada para inferir a capacidade cerebral de um animal) não é superior a de algumas espécies de baleias e golfinhos (capazes, entre outras coisas, de ações planejadas). E indo mais longe ainda: experimentos com algumas espécies de papagaio mostraram espantosa correlação entre suas frases e suas ações (e por que não dizer, intenções?), revelando assim que não são meros repetidores de palavras. Mais uma vez, as semelhanças suplantando as diferenças.
Notem que no trecho citado no início deste post o autor declara “não poder acreditar na evolução”. Dentro do festival de falácias e distorções de fatos que lhes é comum, alguns criacionistas gostam de acusar os biólogos que lidam com evolução de defenderem uma crença, algo que careceria de qualquer embasamento real – mais uma vez a projeção. Todo cientista, biólogo ou não, sabe que uma teoria não é (ou ao menos não deveria ser) elaborada para se acreditar nela, uma vez que a mesma se baseia em evidências e não na fé (ver meu texto Ciência e Trabalho Científico). Claro que a contingência histórica influenciou (e provavelmente ainda influencia) muitos cientistas na elaboração das suas teorias, algumas das quais se mostraram incorretas posteriormente (apresentei um exemplo em Os Moluscos de Leonardo da Vinci). Mas usar esse argumento para desacreditar uma teoria científica caracteriza ou uma ingenuidade digna de pena ou uma desonestidade atroz. Seria o equivalente a desacreditar toda a engenharia por um episódio de edifício mal construído. A única maneira de se refutar uma teoria é por meio de outra teoria, coisa que sabemos que o criacionismo está muito longe de ser, pois se baseia única e exclusivamente numa forma de fé. Não há qualquer evidencia que sustente a “ciência da criação”. Já a evolução biológica está repleta de evidencias que podem ser facilmente verificadas em qualquer biblioteca, livraria ou museu. Mais uma vez, só não vê quem não quer.
Conclui-se, portanto, que o alicerce fundamental da fé criacionista é um só e, diga-se de passagem, extremamente frágil. Talvez por isso alguns dos seus seguidores atuem de maneira tão desesperada e por vezes agressiva para que o mesmo não seja definitivamente demolido. Para essas pessoas, se tal pilar ceder o seu mundo desmoronará junto. De fato, constitui um choque muito grande se descobrir como nada superior ou favorito entre as demais criações da natureza. Mas como denota a própria etimologia da palavra desilusão; algumas vezes é preciso destruir ilusões para enxergar as coisas como realmente são. Infelizmente, certas mentiras são por demais confortáveis. Por outro lado, nada disso pode negar que somos uma espécie bem peculiar e de fato muito interessante: um macaco bípede, pelado e neotênico, cuja criatividade e adaptabilidade só se equiparam à sua prepotência.
O egocentrismo humano terminou por nos presentear com a falsa impressão de que a natureza nos pertence e que tem a obrigação de nos agradar. Mas nós é que somos parte dela, que simplesmente é como é; sem nos dever qualquer satisfação por isso. O universo não está nem aí pra nossa mania de grandeza. Goste ou não, a evolução biológica ocorre, assim como a translação da Terra em torno do Sol e os movimentos das partículas elementares da matéria. Àqueles com dificuldade em aceitar essa realidade eu, como criatura cheia de vícios de comportamento e longe de possuir grandes conhecimentos só posso sugerir um ato que, há bem pouco tempo, equivocadamente se tinha como exclusividade da nossa espécie: senta e chora.

Bibliografia recomendada:
ARNOULD, Jacques, A Teologia Depois de Darwin, Edições Loyola, 2001.
DAWKINS, Richard, O Maior Espetáculo da Terra; As Evidências da Evolução, Companhia da Letras, 2009.
FUTUYMA, Douglas J., Biologia Evolutiva, FUNPEC, 2003.
GOULD, Stephen Jay, Hen’s Teeth and Horse’s Toes, W.W. Norton, 1983.
ZIMMER, Carl, O Livro de Ouro da Evolução: O Triunfo de Uma Idéia, Ediouro, 2003.



terça-feira, abril 05, 2011

SEREIAS

Aviso aos que ainda não assistiram: Contém Spoilers

Depois dos dragões foi a vez das sereias. Mês passado, o canal Animal Planet apresentou um novo e interessante exercício de imaginação sob a forma de documentário ("mockumentary", no jargão cinetelevisivo). Desta vez o exercício consistia em mostrar como seriam as sereias se elas realmente existissem. Inspirado no mistério envolvendo um curioso tipo de som provindo dos oceanos (apelidado de “bloop”) e partindo de uma suposta validade da hipótese do macaco aquático (que como o próprio nome deixa bem claro, nem chega a constituir uma teoria do ponto de vista científico, pela carência de evidências), é mostrado que animais desse tipo poderiam evoluir para primatas totalmente adaptados ao ambiente marinho, à semelhança do que ocorreu milhões de anos antes com outros grupos de mamíferos, como o que deu origem as baleias (ver meu texto O Urso Nadador de Charles Darwin). Prometo abordar a hipótese do macaco aquático num post futuro, pois a mesma não deixa de ser interessante.
Até por serem criaturas bem menos fantásticas e poderosas, as sereias em questão ficaram muito mais verossímeis que os colossais dragões, apresentados no primeiro “documentário” do gênero, em 2004. As explicações “científicas” para o seu surgimento, evolução e hábitos são totalmente coerentes do ponto de vista biológico – a nadadeira caudal, por exemplo, teria se desenvolvido de forma muito semelhante ao que ocorreu no grupo de mamíferos aquáticos denominados sirênios (acertou quem concluiu que o nome origina-se justamente da palavra siren = “sereia”), a qual pertence o nosso peixe boi. Esses seres seriam perfeitamente possíveis se o referido macaco aquático (lembrando que não há qualquer indício da sua existência, o que o torna também uma espécie fictícia, portanto) tomasse tal rumo evolutivo. A própria abordagem ficou mais lúcida e menos forçada – confesso que ainda tenho dificuldades em aceitar aquela desculpa para explicar como animais de anatomia tão solidamente quadrúpede e pesada como os dragões dos mitos ocidentais poderiam voar. E não, não dá pra comparar com os pterossauros, cuja anatomia responsável pelo voo é completamente diferente. Lembro-me de, na época do episódio dos dragões, tomar conhecimento de pessoas de todas as idades que começaram a acreditar que essas criaturas realmente teriam existido, em virtude do programa. Entretanto, mesmo com toda a melhora, a maneira realista com que tudo ainda é montado torna difícil para os mais desavisados distinguir o que é real da pura ficção. Enquanto escrevo este post, já li vários comentários e textos na internet de gente achando que as tais sereias são reais, chegando a invocar conspirações (parece que algumas pessoas teem verdadeiro fetiche por elas) para justificar suas crenças. Esse seria talvez o único ponto negativo da série. Um aviso no início do mockumentary explicando que tudo aquilo é fictício só ajudaria. Do jeito que está, fica parecendo uma das obras de Dan Brown.
Cabe ressaltar aqui que o mockumentary caracteriza também uma denúncia. E nesse ponto eles acertaram na mosca. Não é preciso ser nenhum gênio ou especialista em mensagem subliminar para notar que ali se encontra uma maneira de mostrar (aliada a uma ficção que inteligentemente não atrapalha tal avaliação) os danos causados à vida marinha por certos tipos de testes envolvendo a tecnologia utilizada nos sonares (representado logo no início pelas baleias encalhadas). No programa, as sereias teriam participação nisso – uma bela ilustração da tendência humana de culpar outros por suas mazelas. Independente da origem do “bloop” continuar um mistério, não há como negar essa realidade. A meu ver, uma ótima sacada.
Além de refletir uma criatividade primorosa, a série é uma ótima ferramenta para dar uma idéia aos leigos de como a ciência funciona, fazendo o público pensar – algo cada vez mais raro hoje, mesmo na TV paga. Sem falar na já mencionada denúncia presente neste em especial. Para quem ainda não viu, seguem abaixo os vídeos da versão em português do programa. Praqueles que preferirem, no próprio Youtube há versões em espanhol, bem como o original em inglês (ambos, até o presente momento, sem legendas).











sexta-feira, abril 01, 2011

10 INDÍCIOS DE QUE VOCÊ É UM PSEUDONERD



Baseados nuns tipos reais que andei trombando por aí.

  1. Você só decidiu virar nerd porque percebeu (ou mais provavelmente, alguém te falou) que “hoje em dia ser nerd é legal, pega bem e dá status”.
  2. Pra você, ser nerd é basicamente uma questão de visual, bastando usar óculos estilosos (mesmo não sendo míope), se fantasiar em encontros temáticos ou ter uma das camisetas do Sheldon do Big Bang Theory pra ser considerado um nerd.
  3. Se diz fã de ficção científica, mas não faz a menor idéia de quem sejam Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Ursula K. Le Guin ou Ray Bradbury.
  4. Você odeia Watchmen por não conseguir entendê-lo. E não tem a menor vontade de entender. Na verdade, você não tem a mínima vontade de entender nada. Estudar qualquer coisa, pra você, é um martírio.
  5. Você adorou os Batmen de Joel Schumacher, Superman Returns e as adaptações cinematográficas de Elektra e Catwoman.
  6. Acha que Avatar merecia levar o Oscar de Melhor Filme.
  7. Seus escritores favoritos são Dan Brown e Paulo Coelho.
  8. Na sua vida amorosa, nerds são justamente o tipo de pessoa que não te desperta o menor interesse.
  9. Compra quilos de produtos em eventos ou lojas do gênero (especialmente se estiver na companhia de verdadeiros nerds) sem nunca fazer uso dos mesmos – livros e revistas, por exemplo, dificilmente serão lidos.
  10. Tem verdadeiro pavor de parecer nerd fora dos encontros e eventos.


segunda-feira, março 21, 2011

METAFÍSICA

Por Luis Fernando Verissimo

Quando Einstein morreu foi para o céu, o que o surpreendeu bastante. Assim que chegou, Deus mandou chamá-lo.
-Einstein! - exclamou Deus quando o avistou.
-Todo-Poderoso! - exclamou Einstein, já que estavam usando sobrenome. E continuou:
-Você está muito bem para uma projeção antropomórfica da compulsão monoteísta judaico-cristã.
-Obrigado. Você também está ótimo.
-Para um morto, você quer dizer.
-Eu tinha muita curiosidade em conhecer você - disse Deus.
-Não me diga.
-Juro por Mim. Há anos que Eu espero esta chance.
-Puxa...
-Não é confete, não. É que tem uma coisa que Eu queria lhe perguntar...
-Pois pergunte.
-Tudo o que você descobriu foi por estudo e observação, certo?
-Bem...
-Quer dizer, foi preciso que Eu criasse um Copérnico, depois um Newton etc, para que houvesse um Einstein. Tudo numa progressão natural.
-Claro.
-E você chegou às suas conclusões estudando o que outros tinham descoberto e fazendo suas próprias observações de fenômenos naturais. Desvendando os meus enigmas.
-Aliás, parabéns, hein? Não foi fácil. Tive que suar o cardigã.
-Obrigado. Mas a teoria geral da relatividade...
-Sim?
-Você tirou do nada.
-Bem, eu...
-Não me venha com modéstia - interrompeu Deus. - Você já está no céu, não precisa mais fingir. Você não chegou à teoria geral da relatividade por observação e dedução. Você a bolou. Foi uma sacada. É ou não é?
- É.
-Maldição! - gritou Deus.
-O que é isso?
-Não se escapa da metafísica! Sempre se chega a um ponto em que não há outra explicação. Eu não agüento isso!
-Mas escuta...
-Eu não agüento a metafísica!
Einstein tentou acalmar Deus.
-A minha teoria ainda não está totalmente provada...
-Mas ela está certa. Eu sei. Fui eu que criei tudo isso.
-Pois então? Você fez muito mais do que eu.
-Não tente me consolar, Einstein.
-Você também criou do nada.
-Eu sei! Você não entendeu? Eu sou Deus. Eu sou a minha própria explicação. Mas você? Você não tem desculpa. Com você foi metafísica mesmo.
-Desculpe. Eu...
-Tudo bem. Pode ir.
-Tem certeza que não quer que eu...
-Não. Pode ir. Eu me recupero. Vai, vai.
Quando Einstein saiu, viu que Deus se dirigia para o armário das bebidas.


Originalmente publicado na revista Veja, na edição de 11 de maio de 1988.


segunda-feira, março 14, 2011

SOBRE DESASTRES NATURAIS E O ANTROPOCENTRISMO

Imagem do tsunami que varreu a costa nordeste do Japão, na última sexta feira.

Fenômenos naturais de considerável magnitude, especialmente quando fazem vítimas, costumam suscitar além de alerta e comoção, questionamentos diversos. Não poderia ser diferente com o terremoto (o maior da história do país), seguido de um tsunami de cerca de dez metros de altura e mais de 350 tremores secundários, ocorridos na região nordeste do Japão no último final de semana – escrevo este texto no final da noite de domingo e acabo de saber da aproximação do segundo tsunami e da explosão na usina nuclear em Fukushima. Entre as várias questões levantadas sobre essa tragédia, talvez a mais visível seja a sugestão de que a proximidade de tantos fenômenos semelhantes (como os terremotos recentes do Chile e do Haiti) sejam consequência da degradação ambiental promovida pelo ser humano.
Minha experiência como professor bem como minhas incursões na área de educação ambiental tem me revelado um número cada vez maior de pessoas muito bem intencionadas, mas repletas de informações equivocadas sobre os mais diversos assuntos. E isso, é sempre bom esclarecer, independente da escolaridade ou “nível cultural”. Nos últimos dois dias, lendo as seções de e-mails e cartas dos jornais de grande circulação, notei essa idéia de que terremotos e maremotos teriam sua origem na ação humana aparecendo com relativa frequência. Num deles, até um colunista dizia pensar o mesmo, ainda que com assumida e sensata cautela. Não obstante o quão importante é constatar o crescimento da consciência ambiental na população mundial como um todo nas últimas duas décadas, tal idéia não faz o menor sentido. Influenciada em igual medida pela onda do politicamente correto (especialmente, mas não apenas, no Brasil), o ecoterrorismo inconsequente de alguns grupos e a formação sistemática de uma horda cada vez maior de indivíduos que possuem um grande número de informações superficiais sobre quase tudo sem conhecer realmente nada (naquele que talvez seja o maior efeito colateral da velocidade vertiginosa com que a informação circula hoje), a defesa de que o homem seria o principal responsável por tudo que mata os seus semelhantes vem ganhando força. Os mais exaltados chegam a enxergar “sinais” em tais eventos. Nos parágrafos seguintes, tentarei expor os três principais motivos que explicam porque o homem nada tem a ver com a origem ou causas de tais fenômenos. Na verdade, trata-se basicamente de uma falsa impressão, originada da tendência humana de não olhar para nada além do seu próprio umbigo.
Começarei pela força motriz de tudo isso: a natureza. Está acontecendo mais tremores e tsunamis hoje que em qualquer outra época, certo? Errado. Na verdade o estudo sobre a movimentação das placas tectônicas vem mostrando que o número de tremores e eventos relacionados, como erupções vulcânicas, tem diminuído ao longo da história da Terra. A grande questão é que quando eles ocorriam em maior número, ou ainda não existiam no planeta pessoas para presenciá-los ou elas ainda eram em número bem menor e viviam em grupos dispersos. Lembremos que nossa espécie está aqui há pouco mais de 100 mil anos, dentro dos 4,5 bilhões de anos de existência da Terra e 3,6 bilhões de anos de vida na mesma. Ou seja, em termos geológicos, chegamos aqui ontem. Inclusive, alguns dos grandes episódios de extinção em massa no nosso planeta (foram cinco ao todo) tiveram sua origem exclusivamente em eventos internos. E nem me refiro àquele velho conhecido da cultura popular (a extinção cretácio-terciária, há 65 milhões de anos, que vitimou os dinossauros e diversos outros tipos de animais e plantas – esses últimos quase sempre omitidos pela imprensa e esquecidos do grande público), tendo em vista que ainda há um intenso debate em torno de que a causa do mesmo teria sido ou não um agente externo – a título de esclarecimento, não há dúvidas que ocorreu o célebre impacto de um enorme meteoro, mas alguns especialistas sustentam que a extinção já se fazia presente quando ele ocorreu, configurando-o como apenas um “golpe de misericórdia”. O que a maior parte do público não especializado desconhece é que antes do aparecimento dos dinossauros e do grupo ao qual pertencemos (os mamíferos) a vida no nosso planetinha azul literalmente quase desapareceu. Há cerca de 230 milhões de anos, a extinção permo-triássica dizimou 90% dos seres que viviam em terra, rios, lagos e oceanos. Sem dúvida, uma cifra que faz as últimas catástrofes naturais registradas parecerem fichinha. Nunca houve na Terra mortandade sequer próxima disso – a extinção cretácio-terciária levou cerca 60% dos seres vivos de então. E, obviamente, causada por eventos naturais.
Conforme abordei no meu texto Sobre Fé, Divindades e Epiderme, a cultura predominante nas nações ocidentais (e que hoje influencia também boa parte do Oriente) tende a ver o ser humano como o centro do universo e um ente externo aos outros aspectos naturais. Tudo existe em função ou foi feito para o deleite da espécie humana. A essa visão de mundo damos o nome de antropocentrismo (de anthropos = "homem" ou "humano"). Mesmo com a maior consciência ecológica atual, a maioria das pessoas vê a humanidade como algo especial entre as outras criaturas. Basta notarmos o grande número de pessoas sabidamente de boa índole que não aceitam de forma alguma serem comparadas aos outros animais, quanto mais saber que é um animal. Por vezes esse antropocentrismo se manifesta de forma sutil e até inconsciente, com o indivíduo excluindo automaticamente da sua memória todos os eventos catastróficos que não inclua outros seres humanos. Isso explica, em parte, essa sensação enganosa de que acontecem mais terremotos, maremotos, erupções vulcânicas e eventos similares hoje que em outras épocas.
Outro fator importante é a diferença da quantidade de informação e a velocidade com que a mesma circula hoje do que era feito há duas ou três décadas. Atualmente recebemos todo tipo de conteúdo, de qualquer parte do mundo, em questão de segundos. E numa quantidade tão grande que é simplesmente impossível assimilarmos tudo, sendo obrigados a selecionar aquilo que seria realmente útil ou de interesse mais urgente. No século XIX notícias importantes poderiam demorar mais de duas semanas para chegar à população – e isso se fosse do interesse do então governo divulgá-las. Quando eu era criança, na década de 1980, temas de pesquisa tinham que ser garimpados durante horas nas bibliotecas. Hoje, basta ligarmos o computador. E basta o conhecimento (ou indicação) de alguns bons sites de referência para obtermos uma parte substancial daquilo que precisamos. Mesmo os livros estão mais acessíveis, com os ebooks, cópias de obras que já são de domínio público e compras on-line das obras impressas. Como me disse certa vez uma das pessoas mais sábias que tive a oportunidade de conhecer, hoje em dia já não há mais grandes segredos, pois eles migraram para a internet e as livrarias, ficando ao alcance de todos. A menos que você viva totalmente isolado da civilização, informações sobre os fenômenos naturais de maior impacto é parte integrante do seu cotidiano.
O terceiro e último aspecto diz respeito ao nosso domínio demográfico do planeta. Nossa espécie não só se espalhou por praticamente toda a superfície da Terra como não existe mais isolamento entre as nações – ou seria mais correto dizer que vivemos, ao menos sob o ponto de vista da informação, numa grande nação global? Há menos de um século, boa parte das grandes catástrofes naturais sequer chegava ao conhecimento das pessoas comuns. Em alguns casos porque ocorriam em locais onde não viviam seres humanos, em outros porque estes viviam em comunidades muito pequenas e/ou isoladas. Hoje é praticamente impossível não detectar os eventos naturais que ocorrem pelo mundo. E mais, alguns países extremamente populosos como o Japão e boa parte do Sudeste Asiático se localizam em regiões propícias a maior incidência de tremores, por estarem sobre a junção de placas tectônicas. Logicamente, eventos de maiores proporções nesses locais acabam vitimando muitas pessoas. O número elevado de mortos traz a falsa impressão de que esses eventos estariam aumentando ou ficando piores, sendo que na verdade apenas morreu mais gente, justamente porque lá havia muita gente.
Confesso que essa idéia errônea tão repetidamente proferida por boa parte das pessoas nos últimos anos muito me incomoda. Mas vejo que tem seu lado positivo: mostra com bastante clareza onde e como aqueles que atuam com divulgação científica precisariam trabalhar para que tal quadro se reverta. Sim, é cada vez maior o número de evidencias que ligam as ações humanas às alterações climáticas das últimas décadas. Mas alterações climáticas e movimentos tectônicos possuem origens completamente distintas. Já posso ouvir os brados dos pesquisadores de Wikipedia: “Mas alguns testes com mísseis nucleares causaram tsunamis”. Isso é fato. Como também é fato que a grande maioria dessas ondas gigantescas é causada por tremores naturais. Desastres naturais sempre ocorreram. E com muito mais freqüência que nos dias atuais. A única diferença é que eles nunca mataram e desabrigaram tanta gente. Simplesmente porque há muito mais gente no mundo e praticamente não há mais regiões desabitadas. O planeta encontra-se superlotado.
Em plena era digital, vivemos um novo tipo de antropocentrismo, uma fantasia megalomaníaca disfarçada de inocência (típica da hipocrisia atualmente dominante), um esoterismo pop new age disfarçado de ciência e repleto de “sinais”, aonde o Homo sapiens é visto como o responsável direto por tudo que ocorre no planeta. Até pelo que está muito além do seu alcance. Mesmo com toda a informação e esclarecimento disponíveis, continuamos a acreditar na inexistência de eventos sobre os quais nada podemos fazer e atribuir à nossa espécie poderes quase divinos. De fato é mais fácil culpar o homem do que aprender a respeitar verdadeiramente a natureza, começando por praticar aquilo que se prega. A dinâmica da crosta terrestre independe do que um pretensioso primata bípede e pelado pensa dela. Só resta a ele criar maneiras de evitar o pior nos locais onde a terra inevitavelmente se moverá de maneira nada amigável.

quarta-feira, março 09, 2011

PRA QUEM GOSTA DE MULHER

Desde 1910 é celebrado em 08 de março o Dia Internacional da Mulher. Já adianto que não concordo com tal denominação, uma vez que pra mim todos os dias são das mulheres assim como os são de todos os outros seres humanos. Por isso não tecerei aqui argumentos sobre a importância dessa data, nem me deixarei seduzir pelo clichê que deve estar vigorando em muitos outros sites e blogs sobre as qualidades que tornam as mulheres essenciais nas nossas vidas e no mundo. Muito menos venho mostrar o machismo ainda dominante na maior parte das culturas da atualidade e as dificuldades pelas quais as mulheres ainda passam em todo o planeta. Nesse último caso, especificamente, recomendo a leitura desse excelente texto da biomédica e escritora Cristina Lasaitis, publicado há um ano. Eu jamais poderia ter feito melhor: direto, sucinto e verdadeiro; um autêntico soco no estômago do politicamente correto.
Não é preciso ter doutorado na área de psicologia para notar que, assim como muito do racismo parte das chamadas “minorias raciais” (ver meu texto 100% MESTIÇOS, propositalmente postado no Dia da Consciência Negra), boa parte do machismo se manifesta por meio de um contingente considerável do próprio sexo feminino. Tal fato é facilmente constatável em atitudes como nunca tomar a iniciativa num flerte (pois “não fica bem para uma mulher”), ter como principal objetivo de vida ser sustentada por um companheiro abonado ou não fazer nada sem a “permissão” do marido/namorado/noivo. As mulheres que se sujeitam a isso, antes de qualquer coisa, não se gostam, uma vez que se deixar subjugar pelos caprichos daqueles que não gostam de mulher. É exatamente isso, prezado leitor. A grande verdade é que homem machista não gosta de mulher, gosta apenas de sexo com mulher. Gostar de mulher vai muito além do prazer sexual. Pra gostar de mulher é preciso ser muito, muito macho. Algo que o machista não é, pois não passa de um covarde inseguro que, pra começar, não valoriza nem a si próprio. Por sua vez, as mulheres machistas não gostam de si mesmas, pois não tem coragem de serem elas mesmas. E hoje faço um intervalo no tema principal deste blog (se é que isso seria possível, tendo em vista que considero muito difícil falar de seres humanos e suas relações ignorando completamente os seus componentes biológicos) para discorrer justamente sobre gostar de mulher.
Primeiramente, quem gosta de mulher não tem data específica para apreciá-las ou celebrar sua existência. Anos atrás descobri um texto interessante aonde o autor (a versão que chegara até mim era atribuída a Arnaldo Jabor, mas sabemos o quanto isso é questionável tendo em vista o que geralmente ocorre com material tão rodado na internet) descrevia o que, na sua visão, seria realmente gostar de mulher. Algo que ele deixa bem claro desde o início é que isso seria muito mais que apreciar as formas de um belo corpo feminino, pois isso qualquer indivíduo macho heterossexual da espécie já possui na sua bagagem genética antes mesmo de vir ao mundo. Gostar realmente de mulher, ele afirma, requer sensibilidade e tato, enxergar além do físico e admirar alguém na sua totalidade. Concordo em gênero, número e grau.
De fato, babar por um belo corpo é automático, não requer nenhum aprendizado. No que diz respeito exclusivamente ao aspecto físico (ou seja, não incluindo possíveis afinidades e sentimentos), a mulher que geralmente nos atrai é essencialmente a boa reprodutora: jovem (para gerar muitos filhos), cintura fina, quadris largos, coxas grossas e seios firmes. Contudo, embora Freud e outros nos tenham mostrado que somos em grande parte guiados por nossos instintos, mais tarde descobrimos que estamos longe de ser escravos passivos dos mesmos. Talvez essa seja a única real diferença da nossa espécie em relação aos outros animais. O homem (ou ao menos aquele que mereça realmente essa denominação) não pensa por meio da testosterona. Pelo menos não o tempo todo.
Ao mesmo tempo, gostar de mulher é bem diferente de endeusá-las, colocando-as num altar, como se fossem superiores aos homens. Elas são seres humanos como nós, igualmente imperfeitas – ainda que fascinantes. E talvez justamente aí resida todo o seu encanto, pelo menos pra quem é adulto o suficiente pra não desejar algo que nunca irá encontrar, já que pessoas perfeitas não existem. Muitos indivíduos do sexo masculino ainda se confundem quanto a isso. Para amar as mulheres, comecemos por fazer uso daquela palavrinha mágica: respeito. E isso inclui respeito por si mesmo e ter amor próprio. Quem não se valoriza, jamais será valorizado por outrem. Homem tem que ser homem. As mulheres que valem a pena gostam de homens, não de capachos.
Volta e meia me pego comentando com amigos (e amigas) como, por vezes, me sinto um estranho no ninho por não sentir nenhuma admiração por mulheres que estão em evidência exclusivamente por, e sem nada a oferecer, além da sua beleza física - muitas vezes de apenas uma determinada parte da sua anatomia. Claro, o que é bonito muito agrada aos meus olhos. Sem hipocrisia. Mas beleza vazia é frustrante, pra não dizer broxante. Sem falar na noção profundamente enraizada no senso comum de que beleza e inteligência não poderiam coexistir numa mesma mulher. Às vezes tenho a impressão de que nasci no planeta errado. Uma mulher bela não é necessariamente interessante. De fato, acho mesmo algumas repugnantes, devido ao seu comportamento vulgar e ausência de talentos e motivações. Para muitos, isso soaria absurdo. Azar deles. Costumo dizer que uma mulher realmente interessante, pra mim, é aquela que antes de qualquer reação hormonal óbvia, me encanta com os seus talentos. Nada se compara a uma mulher encantadora, ainda mais se novos encantos nos são apresentados à medida que vamos conhecendo-a melhor. Desvendar a personalidade de uma mulher interessante é uma experiência incomparável, porque ela possui de fato uma personalidade e, portanto, muito a oferecer. Tenho sérias dificuldades em separar uma mulher em partes, como se fosse um brinquedo de montar, para apreciá-las separadamente. Prefiro, como se diz popularmente, “o conjunto da obra”. Uma amiga extremamente encantadora, recentemente escreveu:

Qualquer um que tenha olhos para ver baba num corpão bonito. Mas burrice enfeia qualquer beldade - e qualquer galã. Já a inteligência embeleza.

Para completar tal raciocínio, cito uma frase do fotógrafo alemão Helmut Newton (1920-2004), conhecido principalmente pelos seus ensaios com mulheres que esbanjam força e personalidade, entre elas a atriz Catherine Deneuve:

Uma mulher tipo florzinha recatada, que não é inteligente nem se impõe, não é interessante”.

Um dos grandes males do mundo moderno certamente é a atitude predatória de certos setores da mídia para impor um padrão de beleza, especialmente para as mulheres. Triste de quem embarca nessa piroga furada. Primeiro porque beleza é algo muito subjetivo, o que torna bem estranho afirmar que aqueles que discordem do padrão imposto estejam “errados”. Segundo porque quase sempre tal padrão é anatômica e fisiologicamente inalcançável para 99% das mulheres, o que termina por gerar um efeito cascata de problemas emocionais, psicológicos e por vezes até físicos – configurando crueldade pura e simples. Confesso que o terceiro motivo é pessoal. Acredito sinceramente que o maior trunfo da beleza feminina reside justamente na sua diversidade. Estabelecer um padrão é perder toda a maravilha que consiste em apreciar essa diversidade. E lembrando que aquilo que é considerado belo pode mudar de acordo com a época e a cultura. Criar regras sobre o que seria bonito além de tirânico e insensível é idiota. Claro que existem mulheres feias. Afinal, o próprio conceito de beleza não existiria sem a presença da feiúra. Considero o cúmulo da hipocrisia dizer que ninguém é feio. E sendo sincero, acho bem feios esses cabides ambulantes com cara de cadáver do “mundo fashion”. Ossos da bacia pélvica visíveis não é beleza. É doença. E 75 não é medida de quadril de uma mulher adulta saudável. Mulher realmente bonita tem curvas. E sabe valorizar aquilo que a natureza lhe deu.
Esta é apenas a opinião de um homem que gosta de mulher. Não posso falar, por exemplo, em nome das minhas amigas gays, muito embora compartilhemos do mesmo bom gosto. Para finalizar, seguem doze damas pelas quais nutro uma admiração especial. Na verdade o número de mulheres cuja atuação eu aprecio, felizmente, não caberia num post. Nesse caso decidi evitar ao máximo o lugar comum das celebridades e citar aquelas que se destacam nas suas respectivas áreas sem que, no entanto, sejam íntimas dos flashes e holofotes. Também decidi abranger a maior variedade possível de profissões, evitando um número muito grande de atrizes ou cantoras, por exemplo. Sim, elas são lindas. Mas o que realmente as diferencia é uma série de outros predicativos: todas muito inteligentes, nada óbvias, autênticas, donas de uma sensualidade natural e (talvez justamente por isso) nada apelativa, além de incrivelmente talentosas e competentes nos caminhos que decidiram seguir – com as próprias pernas. Como se isso tudo já não bastasse, tive o prazer de conhecer algumas delas pessoalmente e descobrir que são de uma doçura ímpar, cada qual a sua maneira. São pessoas com quem você começa a conversar e não quer mais parar. Impossível não se encantar. Sem dúvida, cada uma delas conquistou o meu coração de maneira individual e única.


Camila Fernandes – Ilustradora e escritora brasileira


Cléo de Páris – Atriz brasileira


Cristina Lasaitis – Biomédica e escritora brasileira


Elinor Carucci – Fotógrafa americano-israelense


Felisa Wolfe-Simon – Biogeoquímica da NASA


Márcia Tiburi – Filósofa, artista plástica e escritora brasileira


Maret Grothues – Jogadora holandesa de voleibol


Mariana Aydar – Cantora, compositora e multinstrumentista brasileira


Marianne Steinbrecher, a Mari - Jogadora brasileira de voleibol


Paula Amidani – Atleta brasileira de Wu Shu


Soledad Villamil – Atriz e cantora argentina


Suzana Herculano-Houzel – Neurocientista brasileira



A todas aquelas que exercem suas profissões com semelhante dedicação, paixão e brilho, sintam-se representadas por elas. Parabéns por serem mulheres de verdade, todos os dias.

terça-feira, março 01, 2011

O URSO NADADOR DE CHARLES DARWIN

Em pleno século XIX, com suas primeiras deduções a respeito da evolução dos seres vivos (que décadas mais tarde culminaria com o lançamento do clássico "A Origem das Espécies e a Seleção Natural") tomando forma, o naturalista inglês Charles Robert Darwin chegou a seguinte conclusão, ao observar um enorme urso pardo (Ursus arctus) que estava nadando num lago com a boca aberta para apanhar insetos:

Não vejo problemas em imaginar um urso se tornando, por necessidade, cada vez mais aquático, e tendo uma boca cada vez maior, para poder apanhar peixes, insetos e outros pequenos seres em maior quantidade. Seus descendentes então se tornariam cada vez maiores, com bocas maiores e cada vez mais aquáticos. Até se transformarem em enormes baleias.

Esse curioso raciocínio de Darwin apareceu nas primeiras edições de "A Origem das Espécies", sendo um dos pontos do livro mais criticados por seus adversários, inclusive outros naturalistas da época; pois era uma afirmação que carecia de evidências. O próprio Stephen Jay Gould (1941-2002), paleontólogo e um dos maiores divulgadores da evolução biológica do final do século XX, classificou a afirmativa de Darwin como "boba"; nem correta nem errada, apenas "boba”, por não ser científica, não caracterizar uma teoria e não se basear em evidências para sustentar-se. Enfim, era apenas um palpite. E um palpite dos mais infelizes. Darwin foi inúmeras vezes atacado por causa desse urso, às vezes de forma bem dura, perdendo apenas em críticas pela sua mais famosa conclusão – a de que o homem e os símios possuem um ancestral comum (justamente essa, ironicamente, baseada em evidências contundentes). As críticas a Darwin e o conseqüente mal-estar foram tamanhos que, com o passar dos anos, o comentário sobre o tal urso discretamente desapareceu das edições subseqüentes da obra (nas edições brasileiras, por exemplo, ele não existe).
Até meados do século XX, a evolução dos cetáceos (baleias, golfinhos e seus parentes) foi um dos maiores "trunfos" dos críticos da teoria evolutiva, notadamente os criacionistas. Simplesmente porque, embora anatomicamente fosse perfeitamente possível inferir pela simples observação do esqueleto desses animais que os mesmos eram descendentes de mamíferos terrestres quadrúpedes, desconhecia-se até então o registro fóssil de tal transição terra-mar. Para os criacionistas, seria uma prova cabal de que a evolução não ocorria: se existiram tais animais intermediários, por que ninguém os encontrava? Claro que o desconhecimento ou mesmo a inexistência de supostos espécimes intermediários é um problema criado pelos próprios criacionistas, originário da sua própria ignorância a respeito do registro fóssil, e que em nada invalida a Teoria da Evolução - qualquer bom estudante das áreas biológicas ou entusiasta da vida pré-histórica sabe que boa parte dos seres vivos que viveram na Terra sequer deixaram rastros da sua existência. Ao contrário do que os criacionistas mal informados pensam, não dependemos dos fósseis como evidência definitiva da evolução. A descoberta de alguns fósseis de tipos "intermediários" (criacionistas adoram utilizar esse termo, desconhecendo que toda a forma de vida é de certa maneira uma espécie intermediária) apenas confirmam o que já se sabia por outros meios, como a genética e a anatomia comparada. Mas esse é um assunto que tomaria muito espaço se abordado detalhadamente neste texto. Fica para um post futuro.
Contudo, o tempo mostraria que o equívoco de Darwin não fora assim tão grotesco, embora não deixasse de ser de fato um equívoco. Essa virada a favor do pai da teoria da evolução teve início na última década do século passado. A cerca de 50 milhões até 45 milhões de anos, boa parte do que hoje conhecemos como Oriente Médio era uma região de clima temperado a subtropical recoberta por um mar, posteriormente batizado pelas geociências como Mar de Thetis. Em 1983 o paleontólogo norte-americano Phillip Gingerich, da Universidade de Michigan, juntamente com N.A. Wells, D.E. Russell e S.M.Ibrahim Shah descobriram na região onde hoje fica o Paquistão, o fóssil de um animal que viveu há cerca de 50 milhões de anos, extremamente semelhante a uma baleia. E o mais interessante é que esse animal apresentava uma característica anatômica impossível de ser desconsiderada: era um mamífero terrestre e quadrúpede. Recebeu o nome de Pakycetus ("baleia do Paquistão"), e provavelmente vivia de modo semelhante ao de muitos mamíferos pescadores atuais, indo freqüentemente à água para buscar comida. Mas o Pakycetus ainda guardava mais surpresas: seu crânio era notavelmente semelhante ao de um grupo de mamíferos onívoros, hoje extinto, cuja aparência lembrava vagamente a de um cachorro. Isso só veio confirmar o que alguns pesquisadores já suspeitavam há décadas. Esses animais eram os membros da família Mesonychidae, que por sua vez fazem parte do extinto grupo dos Condilarthra; os ancestrais de todos os mamíferos ungulados (dotados de unhas em forma de casco). Sim, isso mesmo. Por mais diferentes que esses bichos sejam hoje em dia, baleias, porcos, girafas, cavalos e elefantes são parentes distantes, pois possuem um ancestral comum.

Reconstituição de uma das espécies mais representativas dos Mesonychidae, procurando alimento numa praia junto ao Mar de Thetis (Natural History of Northern Arizona Museum).


Reconstituição do Pakycetus attocki (de Cristobal Aparicio, Universidad di Salamanca).
Durante toda a década de 1990 e início do século XXI, fósseis de diferentes espécies de protocetáceos foram descobertos, a ponto de ser possível reconstruir praticamente todos os estágios evolutivos do mamífero quadrúpede ao completamente aquático e pelágico, incluindo alguns “becos sem saída” – caminhos evolutivos que se extinguiram sem deixar descendência. O Mar de Thetis revelou-se um autentico paraíso de leviatãs. Talvez o exemplar mais fascinante desta história evolutiva seja o Ambulocetus natans ("a baleia que caminha e nada") descoberto em 1994 e que viveu há 48 milhões de anos; um predador de hábitos completamente anfíbios, cujos membros transformados em nadadeiras lhe propiciavam uma locomoção muito semelhante a dos atuais leões-marinhos. As nadadeiras eram o seu principal meio de impulsão, enquanto a longa e fina cauda devia servir de leme dentro d’água. Com até 2,5m de comprimento, seu modo de vida devia ser parecido com o dos jacarés e crocodilos, atacando de emboscada pequenos animais, tanto os aquáticos quanto os terrestres que vinham até a margem beber. O Ambulocetus e os já completamente aquáticos Basilosaurus e Dorudon estão entre os "astros" da série Walking With the Beasts, do acordo BBC/Discovery.

Ambulocetos natans predando um pequeno protoungulado (Carl Buell, 1998).

O uso do tronco, e não dos membros, como principal meio de propulsão durante o nado provavelmente teve início com o pequeno Kutchicetus minimus, que viveu há 45 milhões de anos. O fóssil foi descoberto em 2000, numa região do Mar Thetis que hoje fica no sudoeste da Índia. O esqueleto do Kutchicetus (“baleia de Kutch”, o distrito indiano onde foi encontrado) indica que ele devia nadar de modo muito semelhante às lontras modernas, com movimentos vigorosos da flexível coluna vertebral. Interessante notar que o movimento da cauda dos cetáceos (vertical, diferente do movimento horizontal-lateral da cauda dos peixes) desenvolveu-se a partir dessa flexibilidade presente em vários grupos de mamíferos quadrúpedes, de roedores a felinos. Não é o que ocorre, por exemplo, nos répteis, onde também há grande flexibilidade das vértebras nas serpentes e algumas espécies de lagarto, mas a movimentação é horizontal.
 Reconstituição do Kutchicetus minimus (Carl Buell, 2001).
O Basilosaurus drazindai foi a primeira espécie de cetáceo pré-histórico a ser descoberta, em 1834 na América do Norte, pelo naturalista R. Harlan (1796-1843), logo seguido por uma espécie muito semelhante, o B. Isis, no Egito. Fora batizado com esse nome na época (que significa “lagarto rei”) por Harlan considerar erroneamente o esqueleto como de um réptil marinho (mais apropriadamente um tipo de “serpente marinha”), configurando num dos mais célebres erros da história da paleontologia. Apesar do erro, segundo as regras da nomenclatura paleontológica o nome Basilosaurus deve permanecer, a semelhança do que ocorreu em diversos outros episódios similares – como o do Oviraptor, descrito no meu texto Uma Mãe Dedicada... e Injustiçada. Essa baleia pré-histórica, de 40 milhões de anos atrás, atingia até 16m de comprimento e, embora bem menos veloz que as orcas e outros parentes distantes atuais, sua dentição indica que devia ser um predador ativo. Alguns estudiosos sugerem que suas presas habituais podiam ter até 2m – o que incluiria tranquilamente outros mamíferos marinhos. Embora totalmente adaptado à vida nos oceanos, o Basilosaurus apresenta duas características anatômicas que o deixam mais próximo dos ancestrais terrestres que as baleias atuais: seu corpo era ainda bastante alongado, bem menos hidrodinâmico; e (talvez o ponto mais interessante) ainda retinha os membros posteriores, se bem que extremamente atrofiados. Diferentes das baleias atuais, que possuem apenas vestígios de tais membros, os do Basilosurus são formados por um esqueleto completo e tudo indica que eram perfeitamente funcionais. Sua função ainda e discutível. Ao contrário do que esperam muitos daqueles não familiarizados com a evolução biológica, nada impede que tais membros não tivessem de fato função alguma, uma vez que tal ocorrência é relativamente comum na natureza (vide o nosso apêndice intestinal). Órgãos e estruturas que perdem a sua utilidade num organismo não desaparecem de uma hora para outra, evolutivamente falando. Mas a proximidade com os órgãos genitais fez Gingerich sugerir que (e eu me incluo entre os paleontólogos e biólogos evolutivos que apóiam tal teoria) os membros posteriores do Basilosaurus serviriam como auxiliares durante a cópula, com macho e fêmea os usando para se segurar um ao outro. De fato, o corpo quase serpentiforme do Basilosaurus torna bem difícil imaginar uma cópula similar à dos cetáceos atuais sem uma ajuda extra. Espécies mais antigas descobertas posteriormente como o Rodhocetus kasranii e o Takracetus simus, apresentam membros posteriores proporcionalmente maiores que os do Basilosaurus. Como eram completamente aquáticos e já faziam uso da cauda para propulsão (suas reconstituições quase sempre os representam com uma nadadeira caudal igual a dos cetáceos atuais), supõe-se que esses membros os impedisse de encalhar nas suas incursões por praias mais rasas.
Reconstituição moderna do Basilosaurus (=Zeuglodon), com os reduzidos membros posteriores em destaque.


Obviamente, muitas questões referentes aos aspectos da evolução das baleias e seus parentes continuam sem resposta. E muitas das idéias estabelecidas nos anos 90, hoje estão sendo postas em xeque. Alguns pesquisadores já duvidam dos Mesonychidae como ancestrais dos cetáceos (embora seja indiscutível a origem protoungulada dos mesmos) e há aqueles que levantam a hipótese deles estarem mais relacionados filogeneticamente com os ancestrais dos hipopótamos. De qualquer forma, esse não apenas constitui um dos episódios mais interessantes da evolução biológica, como também representam um duro golpe contra o criacionismo. Numa entrevista em 1994, Phillip Gingerich disse o seguinte.

Se você fica satisfeito com uma história que inventa, tudo bem. Mas eu não sou assim. Eu quero saber o porquê daquilo ser de um jeito e não de outro. Quero saber se estou realmente certo. Deixo os fósseis falarem comigo, quero que eles falem comigo. Por isso, quando descobrimos o Pachycetus de 50 milhões de anos, sabendo do Basilossaurus de 40 milhões de anos; percebemos que tínhamos 10 milhões de anos com que trabalhar. E isso me deixou muito satisfeito, porque não precisava ser daquela maneira.


Provável filogenia dos cetáceos.


Ainda que Charles Darwin tenha sido precipitado e nada científico na sua dedução apresentada no início deste texto, percebemos que ele não estava de todo errado. As baleias e seus parentes realmente evoluíram de mamíferos quadrúpedes e onívoros, ainda que sem qualquer parentesco próximo com os ursos. E na verdade, os dois grupos nem são anatomicamente tão diferentes, apesar de filogeneticamente distantes – os ursos evoluíram a partir de um ramo da família dos canídeos e os Mesonychidae deviam ser extremamente parecidos com cães no seu aspecto externo, ainda que com um crânio proporcionalmente bem maior (algumas espécies como o Andrewsarchus mongoliensis apresentam uma cabeça de comprimento quase igual a metade do comprimento do tronco).
Muitas vezes deduções geniais precisam apenas ser testadas por meio das evidências para mostrarem-se válidas. Diferente do que alguns “racionalistas” defendem a ciência não está completamente isenta das características humanas de seus profissionais, pois a mente humana, por mais que alguns queiram, nunca é totalmente racional e analítica. Como criação humana, a ciência sempre estará sujeita aos contextos humanos. Por incontáveis vezes na História da Ciência o contexto social e cultual influenciou pesquisas científicas e as próprias idéias dos cientistas (para ver um exemplo, ofereço meu texto Os Moluscos de Leonardo da Vinci). A verdade é que os cientistas e os artistas são muito mais parecidos do que muitos dos representantes desses dois segmentos gostariam de admitir. Antes de qualquer dedução teórica o cientista faz uso da sua criatividade. E ela pode ou não evoluir para resultados positivos. Há quem acredite que este tipo de criatividade, acompanhada da intuição, seja a marca registrada dos grandes gênios (Da Vinci e Einstein desenvolveram algumas hipóteses de forma semelhante). Independente disso é sempre recomendável lembrar que cientistas são, antes de tudo, seres humanos.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

15 INDICÍOS DE QUE VOCÊ É UM PSEUDOINTELECTUAL


1. Defender que todos só podemos cultuar o que vem da cultura nacional, desprezando toda forma de expressão das outras culturas pelo mundo.
2. Jamais admitir que desconheça algum assunto e sempre ter opinião formada sobre tudo, especialmente temas relacionados à arte, filosofia, política ou ciência.
3. Criticar tudo e todos, sempre, dispensando a necessidade de justificativas e argumentos para sustentar tal atitude.
4. Não ver nenhuma diferença entre ser contra o governo de um país e ser contra o povo daquele mesmo país.
5. Detestar tudo que é considerado popular, sem analisar qualidade; já que o que é realmente bom deveria vender pouco e nunca ser “banalizado”.
6. Utilizar linguagem excessivamente rebuscada em qualquer situação, independente de estar conversando com um alguém culto ou de pouca instrução.
7. Querer freqüentemente discutir idéias e teorias (a maioria das quais nunca compreendeu de verdade) com quem possui "posturas divergentes" das suas, muitas vezes fazendo isso nos locais e situações mais inoportunos.
8. Considerar seres de “inteligência inferior” ou “manipulados pelo sistema” todos aqueles que discordam das suas opiniões.
9. Cultivar uma expressão taciturna e um olhar de total desdém quando está em meio à "plebe".
10. Dizer que não recebe nenhuma influência da sociedade e que não tem nenhum freio moral.
11. Afirmar e defender que determinada obra de arte é genial, mas não saber explicar o porquê.
12. Ler uma enorme quantidade de orelhas de livros (de preferência sempre em público e fazendo uso de exemplares com o título e/ou nome do autor em letras enormes e garrafais) e fingir que manja de literatura e filosofia.
13. Lotar o seu site, blog, Facebook, Orkut, MSN, Twitter etc, com milhares de citações de pensadores sobre os quais não sabe absolutamente nada.
14. Considerar Dan Brown um ícone da literatura e James Cameron o maior diretor de cinema de todos os tempos (nesse caso, além de pseudointelectual, você também é um pseudo-nerd).
15. Ser adepto de várias “teorias” conspiratórias.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

NOSSO REAL TAMANHO NO UNIVERSO

Segue aquele que é, na minha opinião, um dos melhores videos do Youtube.
Além de extremamente didático, constitui um belo golpe na pretensão infantil de boa parte da humanidade.

 
 

terça-feira, fevereiro 01, 2011

VIDA NA TERRA E VIDA EXTRATERRESTRE

Resumo da apresentação realizada no evento 30 Anos de Cosmos, dia 02 de outubro de 2010, no Auditório da Estação Ciência, às 15h00min.

Palestrante: Átila Oliveira da Silva.


Poucas coisas na Terra são tão fascinantes quanto a diversidade de seres vivos que a povoa. E um dos maiores mistério da ciência é, certamente, como a vida teria surgido. Embora hoje já se tenha uma idéia de quando a vida terrena começou, ainda não sabemos como esse fenômeno tão singular teve origem. O mistério torna-se ainda maior se pensarmos na vida não apenas no nosso planeta, mas no universo. Seria a vida um fenômeno universal ou localizado? Seria a vida uma exceção e não a regra no cosmo? Seria a vida exclusividade do planeta Terra? É possível que haja vida em outros planetas? Se sim, esses seres seriam parecidos conosco? Existe vida em Marte?
O astrônomo e divulgador da ciência Carl Sagan (1935-1996) tinha especial interesse na busca por vida extraterrestre e se uniu a especialistas de diversas áreas numa verdadeira caça a evidências nesse sentido, ao mesmo tempo em que repudiava formas não científicas de fazê-lo. Tal atitude pioneira é considerada a semente da área de pesquisa científica interdisciplinar hoje conhecida como Astrobiologia – o estudo da origem, evolução, distribuição e futuro da vida no universo. Entre os aspectos mais interessantes dessa ainda nova área da ciência seria a busca pela química pré-biótica, ou seja, das condições formadoras da vida. Descobertas nesse sentido em outros planetas ajudariam a compreender a própria origem da vida na Terra. Trata-se, contudo, de uma tarefa um tanto ingrata. Afinal, como procurar vida no universo se não conhecemos praticamente nada sequer da nossa própria galáxia, a Via Láctea?
Em 1960, o então astrofísico da Universidade de Cornell Frank Donald Drake, grande amigo de Carl Sagan, deu início ao projeto SETI (Search for Extra-Terrestrial Intelligence ou Procura por Inteligência Extra-Terrestre, em português), que propunha a busca por ondas de rádio que pudessem indicar a presença de civilizações extraterrestres tecnologicamente avançadas. Drake acabou, com o seu trabalho, inspirando o amigo a escrever o célebre romance de ficção científica “Contato” (1985). O primeiro e mais famoso sinal supostamente inteligente foi recebido por Jerry R. Ehman, pesquisador voluntário, num projeto da Universidade do Estado de Ohio, na noite de 15 de agosto de 1977. Ao analisar os dados registrados na impressora, Jerry notou a chegada de um forte sinal recebido pelo telescópio. Imediatamente, destacou-o com um círculo e escreveu à margem a interjeição: "wow!" (“uau!”). O sinal se repetiu apenas uma vez, mas passou a ser considerado o mais forte indício de uma fonte artificial de sinais de rádio. Todavia, como é de praxe quando se faz ciência de verdade, tais sinais devem ser analisados com cautela.
É de fundamental importância, para estudar a possível existência de vida fora da Terra, entender como ela se desenvolveu e se diversificou por aqui. Os naturalistas ingleses Charles Robert Darwin (1809-1882) e Alfred Russell Wallace (1823-1913) foram os pioneiros a mostrar de maneira científica que os seres vivos se modificam, por meio de processos evolutivos. Darwin foi quem apresentou a conclusão sob a forma de teoria científica (“A Origem das Espécies e a Seleção Natural”, 1859), que só vem ganhando força com descobertas posteriores, principalmente na área da genética. No século XX, o biólogo alemão Ernst Mayr (1904-2005), foi o grande responsável pela atualização da teoria da evolução, ao somar à mesma os conceitos modernos de ecologia e genética. No final desse mesmo século, surgiram grandes divulgadores do tema junto ao grande público, como o paleontólogo norte-americano Stephen Jay Gould (1941-2002) e o zoólogo britânico Richard Dawkins. O próprio Carl Sagan abordou a evolução biológica com sua didática magistral na sua série televisiva “Cosmos”.
Para saber como os seres vivos evoluíram em nosso planeta, é preciso antes conhecer a estrutura celular dos mesmos. Quanto à organização celular, os seres vivos dividem-se em procariontes e eucariontes. Os primeiros são os mais simples, cujo núcleo celular (que abriga o material genético, o DNA) não é envolto por uma membrana, denominada carioteca. Esse grupo é formado pelas bactérias e cianobactérias – também conhecidas como “algas azuis”, responsáveis por cerca de 90% do oxigênio que respiramos. Os eucariontes, por sua vez, possuem carioteca e uma série de organelas celulares. São eucariontes todos os seres multicelulares (compostos por várias células, como os animais e as plantas) e os seres unicelulares mais complexos como os protozoários (amebas, paramécios etc.) e algumas algas. Recentemente, um grupo de seres vivos, outrora classificado como bactérias, ganhou um domínio próprio. Denominados arqueobactérias ou, mais adequadamente, Archaea (pronuncia-se “arquéia”), eles são ainda mais simples que as bactérias e foram separados destas na classificação biológica por ter-se concluído que são tão diferentes delas quanto elas o são de todas as outras formas de vida. Para efeito de organização celular, contudo, os archaea ainda são classificados como procariontes. Esses seres estão muito próximos daquilo que seria as primeiras formas de vida e é nesse grupo que figuram a maioria dos denominados extremófilos; seres que vivem em condições extremas de temperatura, pressão, salinidade e acidez, dentre outros fatores. A descoberta dos extremófilos abriu um novo campo de pesquisa na busca por vida extraterrestre. Verdade que há um tipo de ser ainda mais simples que os archaea: os vírus, que são pouco mais que material genético (DNA ou RNA) envolto por uma cápsula de proteína. Contudo, eles não podem ser relacionados com as primeiras formas de vida, pois todo vírus é obrigatoriamente parasita, necessitando infectar células vivas para se reproduzir.
Infelizmente, a maior parte do público leigo possui várias idéias equivocadas a respeito da evolução da vida na Terra, muitas das quais remetendo a interpretações que já foram revistas e corrigidas há décadas no meio acadêmico. É preciso eliminar tais concepções errôneas para que se possa entender o estudo da vida como um todo, incluindo o de possíveis formas de vida extraterrestres.
O primeiro desses equívocos é acreditar que a evolução da vida na Terra deu-se de forma lenta e gradual. O próprio registro fóssil mostra que a coisa foi bem diferente. Tendo surgido a cerca de 3,8 bilhões de anos, a vida terrena foi composta exclusivamente por seres procariontes até 1 bilhão de anos, ou seja, quase três quartos da sua história. Esse é o provável momento do surgimento dos primeiros eucariontes, sabidamente unicelulares. Após isso a evolução acelerou-se de maneira espantosa, com os primeiros seres multicelulares (algas) surgindo há 600 milhões de anos, e os primeiros animais (a fauna de Ediacara) há cerca de 580 milhões de anos. Esses últimos sofreriam um grande surto de diversidade de tipos anatômicos (a chamada “Explosão Cambriana”) há 540 milhões de anos. Dinossauros, bem como os répteis voadores e marinhos foram extintos há 65 milhões de anos. Os primeiros primatas surgiram há 55 milhões de anos e a nossa espécie, o Homo sapiens, há 150 mil anos. Se compararmos a idade da Terra com o calendário que usamos, o homem teria surgido nos últimos segundos do dia 31 de dezembro. Como se vê, a evolução da vida em nosso planeta não foi gradual e, se a célula eucarionte não tivesse se formado, é bem provável que a biosfera se encontrasse praticamente inalterada hoje, com a Terra povoada exclusivamente por archaea e bactérias. A formação da primeira célula eucarionte foi como um tiro no escuro; um evento totalmente casual que acabou fazendo toda a diferença. Stephen Jay Gould, em artigo publicado na revista “Scientific American” em 2001, afirmou que na verdade os procariontes seriam as formas de vida mais vitoriosas, pois “apresentam maior variabilidade bioquímica que todos os outros grupos, existem virtualmente em todos os lugares e são praticamente indestrutíveis”. Os verdadeiros donos da Terra. É essencial saber disso ao se buscar indícios de vida pelo universo afora.
Igualmente presente no senso comum é a imagem da evolução da vida como uma árvore, com um tronco frondoso e numerosos galhos no topo. Essa imagem baseia-se na idéia ultrapassada de que a vida no planeta Terra seria hoje muito mais diversificada que no passado. Isso também não é verdade. Provavelmente, hoje o número de espécies de seres vivos é maior que em qualquer outra época, mas a diversidade de tipos anatômicos básicos é muito inferior ao que já existiu. Isso é ainda mais evidente no Reino Animal, onde a maioria dos tipos surgidos na Explosão Cambriana durou poucos milhões de anos, alguns poucos duraram um pouco mais e um número ainda menor sobrevive atualmente. A imagem moderna da evolução da vida na Terra seria muito mais semelhante a um arbusto, com um número muito maior de galhos próximos à sua base, como se pode ver na figura abaixo.

Representação moderna da evolução da vida na Terra, onde se pode observar o tempo (milhões de anos, eixo vertical) e a diversidade anatômica (eixo horizontal), por David Starwood, baseado em informações de Stephen Jay Gould (2001).


Por fim, outro equívoco bastante freqüente é achar que a evolução possui um propósito e, mais ainda, que esse propósito seja a criação de seres bípedes e inteligentes, capazes de erguer civilizações. Esse pensamento vem da tendência humana de se ver como padrão a ser seguido pelas outras formas de vida. Nossa espécie não pode ser considerada o “ápice da evolução”, mesmo porque não existe ápice nenhum. A evolução biológica não possui qualquer direção ou propósito, a não ser a adaptação do indivíduo ao seu meio ambiente. E isso independe da complexidade. Determinados nichos ecológicos favorecem seres mais simples. Isso pode ser verificado facilmente nos parasitas. Para cada ser de vida livre que se torna mais complexo há um equivalente parasita perdendo estruturas e até sistemas inteiros para tirar melhor proveito do hospedeiro. Ambos estão evoluindo, pois originam novas espécies, mais adaptadas aos seus respectivos habitats. De fato, se há algo previsível na evolução biológica, seria justamente a sua imprevisibilidade.
Para que algum corpo celeste possa abrigar vida como conhecemos (digo isso pelo fato da ficção científica já ter nos brindado com excelentes idéias sobre vida totalmente diferente daquilo que conhecemos) ele deve obedecer seis condições básicas, a saber:
  1. Localização na chamada Zona de Habitabilidade (região correspondente à determinada distância dos planetas com relação à estrela que orbitam, onde a gravidade e temperatura seriam teoricamente propícias à vida, e que no nosso Sistema Solar corresponderia da órbita de Vênus à órbita de Saturno);
  2. Superfície rochosa (o que já exclui todos os planetas gasosos);
  3. Presença de atmosfera (uma vez que todos os seres vivos respiram algum tipo de gás);
  4. Presença dos elementos químicos carbono (C), hidrogênio (H), nitrogênio (N), oxigênio (O), fósforo (P) e enxofre (S) - matéria prima para a formação das proteínas (formadas por aminoácidos) e açucares; estrutura básica dos seres vivos;
  5. Presença de água líquida (pois todos os seres vivos, sem exceção, precisam de alguma porcentagem de água líquida para o seu metabolismo);
  6. Temperatura da litosfera entre -150°C e 100°C para os seres vivos em atividade – lembrando que há espécies (incluindo alguns animais) capazes de sobreviver por meses ou anos em temperaturas maiores ou menores, ao ficarem inativos, em fenômenos como a cristalização e a criptobiose.
Com base nessas informações, nosso Sistema Solar apresenta, até o momento, quatro possíveis candidatos a abrigar vida: o planeta Marte, a lua de Júpiter Europa e as luas de Saturno Encélado e Titã. Marte, justamente por se ter um maior número de informações a respeito, é o que apresenta maiores possibilidades. Recentes descobertas confirmaram que ele apresentou grandes corpos de água líquida no passado (hoje presente apenas sob a forma de gelo) e são grandes as chances de que ao menos há milhões de anos ele tenha abrigado vida unicelular. Titã é considerada muito similar a Terra em seus primórdios, e ganhou notoriedade em 2010 com a descoberta de fenômenos químicos que, talvez, possam indicar atividade biológica na sua superfície, sob sua densa atmosfera e grandes lagos e mares de metano e etano. Já Encélado e Europa, apesar da descoberta de água (na primeira sob a forma de gelo e gêiseres e na segunda formando um grande oceano sob uma camada de gelo de 5 km a 10 km de espessura) e de matéria orgânica (baseada em carbono, que é sempre bom lembrar, não é garantia nenhuma da existência de formas de vida) em ambas, apresentam como ponto desfavorável à vida como conhecemos suas atmosferas extremamente rarefeitas.
Em 2000, o paleontólogo Peter D. Ward e o astrofísico Donald Brownlee, ambos da universidade de Washington, jogaram luz sobre o tema e, paralelamente, conquistaram o ódio dos fanáticos por ETs e discos voadores, ao lançarem o livro “Terra Rara” (vide abaixo, em Referências). Com um estudo detalhado, os dois pesquisadores concluíram que a vida unicelular (notadamente os extremófilos) pode ser relativamente comum no universo, mas a vida multicelular seria algo extremamente raro, e aquilo que poderia se chamar de vida inteligente, se existe, seria ainda mais raro e, com certeza, nada teria de humanóide (bípede, uma cabeça, um par de braços e um par de pernas). Essa conclusão corrige, entre outras coisas, o erro cometido por Drake ao elaborar sua famosa equação, em 1961, com que propunha calcular a probabilidade da existência de civilizações capazes de emitir sinais de rádio para o espaço, na Via Láctea. Sagan simpatizou com a equação e passou a divulgá-la - muita gente ainda hoje pensa que foi Sagan quem a elaborou. Drake chegou à otimista cifra de 100 mil civilizações, que fez os ufólogos darem pulos de alegria. Aliás, alguns charlatões do ramo adoram distorcer esse valor, fazendo-o alcançar a casa dos milhões. Ocorre que os dois astrônomos erroneamente concluíram que toda vida unicelular obrigatoriamente um dia evoluiria para uma espécie capaz da emissão de tais sinais. Como acabamos de ver, a evolução não possui qualquer propósito ou caminho definido, tampouco visa criar seres considerados inteligentes. A verdade é que a espécie humana é uma exceção evolutiva e não a regra. Já vimos como seria a vida por aqui se a célula eucarionte nunca tivesse surgido. E sua aparição não constitui garantia alguma do surgimento de uma espécie capaz de criar cultura e tecnologia. Pegando apenas mais um exemplo, se os dinossauros não tivessem sido extintos, você não estaria lendo esse resumo agora – e ao contrário do que vemos em certas produções hollywoodianas, nada indica que eles seguissem esse caminho evolutivo tão antropocêntrico. Contudo, seria por demais injusto crucificar Drake e Sagan por isso, pois todos são passíveis de erro, ainda mais quando não se é um especialista da área – nesse caso, evolução biológica. Atualizando a equação de Drake, chegamos ao módico valor entre 0 e 10 civilizações da Via Láctea, capazes de emitir sinais de rádio para o espaço. Muitos estudiosos defendem que tais civilizações sequer existam em nossa galáxia.
Carl Sagan certa vez afirmou que se não há vida fora da Terra, então o universo seria um grande desperdício de espaço. Poucos lembram (ou sabem), entretanto, que ele referia-se a qualquer forma de vida, e não especificamente a civilizações extraterrestres. Além de serem os verdadeiros donos da Terra, como escreveram Gould e outros; é provável que os archaea e as bactérias (e talvez também outros seres similares, ainda desconhecidos) sejam a forma de vida mais abundante no universo. E, em algumas galáxias, possivelmente a única. O primeiro extraterrestre com quem manteremos contato muito provavelmente será um micróbio. E se existe vida inteligente fora da Terra e se um dia a encontrarmos, esqueçamo-nos dos alienígenas humanóides baixinhos e cabeçudos, protagonistas de tantos relatos de procedência duvidosa. As chances são muito maiores de que essa sábia criatura se pareça mais com um polvo flutuante, uma coisa amorfa de tonalidades metálicas (baseada em outro elemento químico que não o carbono), ou mesmo algo tão inusitado quanto o oceano pensante do romance “Solaris” (1961), do polonês Stanislaw Lem (1921-2006).


Referências:
Ø      ASIMOV, Isaac, Civilizações Extraterrenas, Nova Fronteira, 1980.
Ø      DAWKINS, Richard, A Grande História da Evolução, Companhia das Letras, 2009.
Ø      GLEISER, Marcelo, Criação Imperfeita, Record, 2010.
Ø      GOULD, Stephen Jay, Darwin e os Grandes Enigmas da Vida, Martins Fontes, 1992.
Ø      GOULD, Stephen Jay, Vida Maravilhosa, Companhia das Letras, 1990.
Ø      SAGAN, Carl, Cosmos, Villa Rica, 1983.
Ø      SAGAN, Carl, O Mundo Assombrado Pelos Demônios, Companhia das Letras, 1995.
Ø      WARD, Peter D. e BROWNLEE, Don, Terra Rara, Campus, 2000.

Na WEB:
Ø      www.astrobiology.com
Ø      www.palaeos.com
Ø      tolweb.org
Ø      www.sciam.com.br


Átila Oliveira da Silva é biólogo, professor e responsável pelo blog Pegadas de Um Dinossauro do Século XXI (atilassauro.blogspot.com)

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